14 de setembro de 2026
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Projeto prevê base permanente do helicóptero Águia em Ubatuba para acelerar resgates

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Anúncio cita união das quatro cidades do Litoral Norte; estrutura reduziria a dependência da travessia aérea da Serra do Mar, mas custeio, local exato e cronograma ainda precisam ser detalhados

 

Ubatuba poderá receber a primeira base permanente do helicóptero Águia da Polícia Militar no Litoral Norte. O projeto foi anunciado na sexta-feira (28), durante a solenidade de passagem de comando do Comando de Políciamento do Interior 1 (CPI-1), em São José dos Campos.

A professora prefeita, de Ubatuba, Flávia Pascoal, e o dentista, prefeito de Ilhabela, Toninho Colucci, participaram da cerimônia ao lado de autoridades civis e militares. Em um vídeo publicado nas redes sociais, os dois afirmaram que as quatro cidades do Litoral Norte pretendem se unir para construir um hangar em Ubatuba.

Colucci declarou que o projeto estaria pronto para ser implantado nos próximos meses e classificou a estrutura como a primeira base do Águia na região. A proposta é aproveitar o reforço aéreo já destinado à próxima Operação Verão e trabalhar para que a aeronave permaneça no Litoral Norte durante todo o ano.

Atualmente, o helicóptero costuma ficar de prontidão na região durante a alta temporada, quando aumenta significativamente a população flutuante, o número de veículos nas rodovias, a movimentação nas praias e a quantidade de ocorrências de salvamento.

Fora desse período, os atendimentos dependem principalmente do deslocamento de aeronaves sediadas em outras regiões, entre elas a Base de Aviação da Polícia Militar de São José dos Campos.

A Serra do Mar como barreira para o resgate

A presença de uma aeronave no próprio Litoral Norte poderá diminuir o tempo de resposta em acidentes graves, afogamentos, ocorrências em ilhas, trilhas, praias isoladas, rodovias e áreas de difícil acesso.

Uma das principais dificuldades enfrentadas atualmente é a travessia aérea da Serra do Mar.

Em determinadas situações, o tempo pode estar aberto tanto em Ubatuba quanto em São José dos Campos, mas a formação de nuvens sobre a serra impede que a aeronave atravesse com segurança.

Isso acontece porque a Serra do Mar forma uma barreira natural entre o Vale do Paraíba e o litoral. A elevação do relevo chega a aproximadamente mil metros em diversos pontos da região.

O ar úmido que vem do oceano é forçado a subir ao encontrar a montanha. Durante essa subida, o ar esfria e favorece a formação de nuvens baixas, nevoeiro e chuva sobre as encostas e os pontos mais altos.

Por esse motivo, é possível observar céu aberto no litoral e no Vale do Paraíba enquanto a passagem sobre a serra permanece completamente encoberta.

 

O que significa voar por regras visuais

Parte das missões realizadas por helicópteros ocorre sob regras de voo visual, conhecidas pela sigla VFR, formada pela expressão inglesa “Visual Flight Rules”.

 

25 ANOS DOA PRF 2024 UBATUBA - FRANCISCO TREVISAN
25 ANOS DOA PRF 2024 UBATUBA – FRANCISCO TREVISAN

Nesse tipo de operação, o piloto precisa manter referências visuais com o terreno, enxergar obstáculos e permanecer afastado das nuvens. As próprias regras do Departamento de Controle do Espaço Aéreo determinam condições mínimas para esse tipo de voo.

Quando uma camada de nuvens cobre a passagem da Serra do Mar, o piloto pode perder a referência visual com o terreno. Tentar entrar nessa formação representa risco de colisão com montanhas, árvores, torres ou outros obstáculos que não podem ser vistos.

É nesse contexto que aparece o chamado “teto meteorológico”: a altura da camada de nuvens que encobre uma parte significativa do céu. Se o teto estiver próximo ou abaixo da elevação da serra, a rota visual entre São José dos Campos e Ubatuba pode deixar de oferecer condições seguras.

Não basta dizer que o helicóptero poderia seguir por instrumentos. Uma operação IFR, realizada por regras de voo por instrumentos, depende de aeronave certificada, tripulação habilitada, planejamento, procedimentos disponíveis e condições adequadas no destino.

Em muitos salvamentos, o trecho final exige aproximação visual em praias, rodovias, encostas, clareiras ou pontos improvisados de pouso. Portanto, mesmo uma aeronave preparada para voo por instrumentos pode encontrar limitações na etapa final da missão.

A decisão de não prosseguir diante de nuvens baixas não representa falta de atendimento. É uma medida de segurança para evitar que uma ocorrência em solo termine também em um acidente aéreo.

 

O que mudaria com uma base em Ubatuba

Com o helicóptero já posicionado no lado litorâneo da serra, a aeronave não precisaria fazer a travessia entre o Vale do Paraíba e Ubatuba para iniciar grande parte das missões na costa.

Essa mudança poderia representar economia de minutos importantes em situações como traumatismos graves, acidentes rodoviários, afogamentos, acidentes vasculares cerebrais, infartos, queimaduras, quedas em trilhas e remoções de pacientes que precisam chegar rapidamente a hospitais de referência.

A base também ampliaria a capacidade de atuação conjunta com o Corpo de Bombeiros, Grupamento de Bombeiros Marítimo, Polícia Militar, Defesa Civil, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência e equipes municipais.

O helicóptero Águia não é utilizado apenas no policiamento. As aeronaves do Comando de Aviação da Polícia Militar também são empregadas em buscas, salvamentos, resgates aeromédicos, combate a incêndios, apoio em desastres e transporte emergencial.

Uma base no litoral, entretanto, não eliminaria todas as limitações meteorológicas. Chuva intensa, rajadas de vento, baixa visibilidade, trovoadas e nuvens muito baixas sobre o próprio município também podem impedir uma decolagem ou interromper uma missão.

O ganho operacional estaria principalmente em retirar a Serra do Mar do trajeto inicial de resposta para ocorrências no litoral.

 

Integração com o Samu de Ubatuba

Ubatuba já possui profissionais do Samu capacitados para atuar de maneira integrada em operações aeromédicas.

O treinamento envolve procedimentos de segurança próximos à aeronave, comunicação com a tripulação, preparação do paciente, transporte de equipamentos, embarque, desembarque e atendimento durante a remoção.

Um registro divulgado pelo Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo aponta que a capacitação realizada no município consolidou uma equipe local apta a trabalhar de forma integrada com o transporte aeromédico.

Essa preparação não significa que qualquer profissional possa simplesmente embarcar em qualquer aeronave. Cada operador possui protocolos próprios, e a integração com o Águia deverá prever treinamentos específicos, exercícios periódicos e padronização entre as equipes.

Na prática, o Samu é responsável por prestar o atendimento inicial, estabilizar o paciente, avaliar a gravidade e trabalhar em conjunto com a regulação médica para definir o meio de transporte e o hospital de destino.

A aeronave não substitui a ambulância. Os dois serviços se complementam. A unidade terrestre chega ao local, inicia o suporte avançado e pode transportar o paciente até um ponto seguro de pouso. O helicóptero assume a remoção quando o ganho de tempo e a condição clínica justificam o transporte aéreo.

Da mesma forma, a existência da aeronave não resolve sozinha as limitações da rede hospitalar. O serviço depende de vagas, regulação, equipes médicas, unidades de referência e condições para receber o paciente.

 

El Niño aumenta a necessidade de planejamento

O anúncio ocorre no momento em que os órgãos oficiais acompanham a intensificação do El Niño.

Segundo boletim elaborado pelo Inmet, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Cemaden, Agência Nacional de Águas, Serviço Geológico do Brasil e outros órgãos federais, existe elevada probabilidade de que o fenômeno atinja intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão de 2026.

O boletim do Inmet alerta para o aumento da probabilidade de impactos hidrometeorológicos em diferentes regiões do país.

Isso não significa que toda chuva, ressaca, onda de calor ou tempestade registrada em Ubatuba será causada diretamente pelo El Niño. O fenômeno modifica padrões de circulação atmosférica, mas seus efeitos variam conforme a região e dependem da interação com frentes frias, umidade do oceano, relevo e outros sistemas meteorológicos.

No Litoral Norte, o planejamento precisa considerar ocorrências associadas a chuvas intensas, deslizamentos, quedas de árvores, bloqueios de rodovias, ventos fortes, ressacas e aumento da demanda nas praias.

Um helicóptero sediado na região pode reforçar a resposta a esses episódios. Porém, durante o momento mais intenso de uma tempestade, a própria condição meteorológica pode impedir o voo. A aeronave deve ser considerada parte de uma rede de resposta que também precisa de ambulâncias, embarcações, bombeiros, guarda-vidas, Defesa Civil, hospitais e equipes terrestres.

 

Anúncio ainda precisa virar estrutura

Apesar da relevância do anúncio, ainda não foram apresentados publicamente o convênio, o orçamento, o cronograma da obra ou o compromisso formal do Governo do Estado de manter uma aeronave e uma tripulação em Ubatuba durante todo o ano.

Também não foi informado o nome da estrutura jurídica que será utilizada. No vídeo, Toninho Colucci cita um “novo consórcio” formado pelas quatro cidades do Litoral Norte, mas não identifica oficialmente a entidade.

 

Os quatro municípios da região são Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela.

Não é possível afirmar, até o momento, que o projeto será executado pelo Consórcio Intermunicipal Turístico Circuito Litoral Norte. Essa entidade possui finalidade voltada ao turismo e reúne cinco cidades, incluindo Bertioga, composição diferente das quatro cidades citadas no anúncio.

Entre as informações que ainda precisam ser esclarecidas estão:

  • qual será o consórcio responsável pelo projeto;
  • quanto custará a construção;
  • como o valor será dividido entre os municípios;
  • onde ficará o hangar;
  • se o terreno já está regularizado;
  • quando a obra começará e será concluída;
  • se haverá licitação;
  • quem custeará combustível, manutenção e estrutura;
  • se o Governo do Estado já autorizou a base;
  • qual aeronave será destinada a Ubatuba;
  • quantos pilotos, tripulantes e profissionais trabalharão no local;
  • qual será o horário de funcionamento;
  • se o atendimento será realmente permanente ou apenas sazonal;
  • como ocorrerá a integração com Samu, Bombeiros, hospitais e centrais de regulação.

A construção de um hangar, isoladamente, não garante uma base permanente. Para que o serviço funcione, será necessário manter aeronave, pilotos, operadores aerotáticos, mecânicos, abastecimento, equipamentos, comunicação e apoio administrativo.

O projeto poderá representar um avanço importante para os resgates no Litoral Norte, principalmente por reduzir a dependência da travessia da Serra do Mar. Para isso, o anúncio feito durante a cerimônia em São José dos Campos deverá agora ser transformado em acordo formal, orçamento, obra e compromisso operacional do Estado e dos municípios.

 

 

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Francisco Trevisan

Jornalista, MTB 0096161/SP, graduado em Comunicação Social pela Unitau e editor do UBA24. Atua na cobertura de Ubatuba e do Litoral Norte paulista.

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