
Por que hoje é feriado em Ubatuba? A Paz de Iperoig e a “maldição” de Cunhambebe
Acordo negociado há 463 anos está representado no brasão municipal por uma canoa com cinco líderes indígenas; trégua breve também deu origem a uma das lendas mais conhecidas da cidade
Ubatuba tem nesta segunda-feira (14) o feriado municipal da Paz de Iperoig. A data recorda o acordo negociado em 1563 entre portugueses e lideranças indígenas na antiga aldeia de Iperoig, localizada na região onde posteriormente se formaria a cidade.
O episódio costuma ser apresentado como o primeiro tratado de paz das Américas e como um acontecimento decisivo para a manutenção do território sob domínio português. Uma análise histórica mais ampla, entretanto, revela uma trégua limitada, cercada por conflitos, escravização, interesses coloniais e promessas que não impediram novos ataques contra os povos indígenas.
Séculos depois, essa contradição também alimentou a chamada “Maldição de Cunhambebe”: uma narrativa segundo a qual o líder tupinambá teria condenado as terras de Iperoig ao fracasso depois que os portugueses romperam as promessas feitas aos indígenas.

POR QUE 14 DE SETEMBRO É FERIADO?
O dia 14 de setembro consta no calendário oficial de Ubatuba como feriado municipal da Paz de Iperoig.
A data é tradicionalmente relacionada ao encerramento das negociações realizadas em 1563 e ao retorno do padre José de Anchieta para São Vicente, depois de permanecer durante meses entre os indígenas como garantia de que os portugueses cumpririam os termos discutidos.

Embora diferentes versões afirmem que um tratado foi “assinado”, não é conhecido um documento formal preservado com a assinatura das partes. Por isso, pesquisadores também descrevem o episódio como acordo, armistício ou trégua de Iperoig.
O CONFLITO ANTES DA PAZ
No século XVI, o litoral entre os atuais estados de São Paulo e Rio de Janeiro era ocupado por diferentes povos indígenas, entre eles grupos tupinambás chamados de tamoios pelos portugueses.
A palavra “tamuya” pode ser traduzida como “avô”, “mais velho” ou “antigo”. O termo foi utilizado para identificar a aliança entre diferentes lideranças e aldeias que resistiam ao avanço da colonização.

Com a expansão portuguesa, aumentaram as capturas de indígenas para trabalho escravizado, a ocupação de territórios, a destruição de aldeias e os conflitos com os povos originários.
Os portugueses mantinham alianças com tupiniquins e temiminós. Parte dos tupinambás, por sua vez, aproximou-se dos franceses, que disputavam com Portugal o controle da região da Baía de Guanabara.
A chamada Confederação dos Tamoios não funcionava como um Estado centralizado. Era uma rede de alianças entre aldeias e lideranças que compartilhavam determinados interesses, mas que também podiam divergir sobre a guerra e as negociações.
ANCHIETA E NÓBREGA CHEGAM A IPEROIG
Em 1563, os jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta partiram para Iperoig com a missão de negociar a interrupção dos ataques.
As lideranças indígenas apresentaram reivindicações como a libertação dos indígenas mantidos em cativeiro, o fim das invasões e a interrupção da escravização promovida pelos colonizadores.
As negociações envolveram chefes como Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí. Não havia consenso entre as aldeias. Algumas lideranças aceitavam discutir uma trégua, enquanto outras desconfiavam das promessas portuguesas e defendiam a continuidade da resistência.
Nóbrega retornou a São Vicente acompanhado de Cunhambebe para negociar as condições do acordo. Anchieta permaneceu em Iperoig como uma espécie de refém e garantia da continuidade das conversas.
É desse período a tradição segundo a qual Anchieta teria escrito milhares de versos dedicados à Virgem Maria nas areias da praia, memorizando o conteúdo antes que as palavras fossem apagadas pelo mar. Pesquisadores observam que o episódio foi transformado ao longo do tempo em uma narrativa religiosa e heroica, sem comprovação integral de todos os detalhes.
UMA PAZ QUE NÃO ENCERROU A GUERRA
A versão tradicional afirma que o entendimento alcançado em 14 de setembro de 1563 interrompeu os ataques e garantiu a unidade territorial e religiosa do futuro Brasil.
A interpretação histórica contemporânea apresenta um cenário mais complexo. O acordo não foi aceito por todas as aldeias e teria alcançado principalmente os grupos ligados a Iperoig. Em outras regiões, especialmente na Baía de Guanabara, os confrontos continuaram.
Nos anos seguintes, forças portuguesas e seus aliados avançaram contra aldeias tamoias. Houve destruição de comunidades, mortes, prisões e escravização dos sobreviventes. A própria Prefeitura de Ubatuba reconhece, em sua página sobre a história da cidade, que o tratado representou a aniquilação de algumas tribos.
Por isso, parte dos pesquisadores considera inadequado tratar o episódio como uma paz definitiva. O que ocorreu foi uma trégua temporária e uma reorganização das alianças antes da continuidade da guerra colonial.
A CANOA E OS CINCO REMADORES DO BRASÃO DE UBATUBA
A memória da Paz de Iperoig não está presente apenas no feriado. Ela também aparece em um dos principais símbolos oficiais de Ubatuba.

Na parte inferior do brasão municipal existe uma canoa navegando no mar com cinco remadores. Segundo a descrição oficial da Prefeitura, a embarcação recorda a presença e a atividade dos povos indígenas estabelecidos na região.
Os cinco remadores representam Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí, apresentados oficialmente como líderes das cinco tribos tupinambás que formaram a Confederação dos Tamoios.
A imagem possui uma importância que muitas vezes passa despercebida: cinco lideranças da resistência indígena permanecem representadas no próprio brasão de Ubatuba.
A cruz com resplendor dourado recorda a Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba, nome recebido pela vila depois do avanço da ocupação portuguesa. Os ramos de ubá fazem referência aos caniços silvestres associados à origem indígena do nome do município.
O brasão passou por modificações em 1957 e 1967. Na última mudança, determinada pela Lei Municipal nº 120, foi acrescentada a frase em latim “Unitatem Servavit Patriae Et Fidei”, traduzida como “Conservou a Unidade da Pátria e da Fé”.
A inscrição reforçou a versão oficial segundo a qual a Paz de Iperoig teria impedido a divisão do território entre portugueses e franceses.
QUEM FOI CUNHAMBEBE?
Cunhambebe tornou-se uma das figuras mais conhecidas da resistência tupinambá contra a ocupação portuguesa. Relatos históricos o apresentam como uma liderança de grande influência entre diferentes aldeias do litoral.

Uma questão, porém, costuma provocar confusão. Pesquisas históricas apontam que existiram pelo menos dois caciques conhecidos como Cunhambebe.
O primeiro foi o líder descrito pelo mercenário alemão Hans Staden e teria morrido em 1555, antes da Paz de Iperoig. Outro Cunhambebe, citado nos registros relacionados a Anchieta, participou das mobilizações e das negociações indígenas da década seguinte.
A existência de duas lideranças com o mesmo nome ajudou a misturar personagens, acontecimentos históricos e tradições populares. O próprio Blog do Ubatubense destaca a interpretação de que seriam pai e filho: o primeiro contemporâneo de Hans Staden e o segundo ligado às negociações de 1563.
A “MALDIÇÃO DE CUNHAMBEBE”
Uma das narrativas mais conhecidas de Ubatuba afirma que Cunhambebe, arrependido por ter acreditado nas promessas portuguesas, teria lançado uma maldição contra os invasores e seus descendentes.
Segundo a lenda, as terras de Iperoig seriam transformadas em terras do fracasso, onde nada prosperaria e tudo o que fosse iniciado ficaria inacabado.
A história passou a ser associada a ciclos econômicos, projetos públicos e empreendimentos que começaram com entusiasmo em Ubatuba, mas não foram concluídos ou tiveram resultados inferiores aos esperados.
A versão atualmente divulgada foi popularizada por uma crônica do arquiteto Renato Nunes, publicada em 2001 no jornal “A Cidade”. A própria Secretaria Municipal de Turismo apresenta o relato como uma lenda.
Não há, nas fontes históricas conhecidas, documento produzido no século XVI que registre Cunhambebe pronunciando essa maldição. Portanto, a declaração não pode ser tratada como fato historicamente comprovado.
A lenda também afirma que a maldição somente terminaria quando a Paz de Iperoig deixasse de ser comemorada exclusivamente como uma vitória dos jesuítas e passasse a reconhecer a resistência, o sofrimento e o papel dos povos indígenas.
ENTRE A HOMENAGEM E A TRAIÇÃO
A Paz de Iperoig permanece como um dos acontecimentos mais importantes da formação histórica de Ubatuba. Ao mesmo tempo, a data provoca uma discussão sobre a maneira como a colonização foi contada durante séculos.
De um lado está a narrativa oficial de um acordo que teria garantido a unidade territorial do Brasil. Do outro, estão as consequências enfrentadas pelos povos indígenas depois da trégua: aldeias destruídas, territórios ocupados, escravização e mortes.
A canoa com cinco remadores no brasão ajuda a revelar uma parte dessa história. Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí não foram personagens secundários de uma negociação conduzida apenas por portugueses. Eles representavam povos que já ocupavam o território e tentavam defender sua liberdade, suas aldeias e seu modo de vida.
Já a “Maldição de Cunhambebe”, mesmo sem comprovação documental, tornou-se uma forma popular de lembrar que a paz celebrada pelos vencedores não teve o mesmo significado para aqueles que perderam terras e parte de seu povo.
Entre o feriado, o brasão e a lenda, o dia 14 de setembro mantém aberta uma questão histórica: quem conta a origem de Ubatuba e quais personagens foram deixados fora dessa narrativa.
