14 de setembro de 2026
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Por que hoje é feriado em Ubatuba? A Paz de Iperoig e a “maldição” de Cunhambebe

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Acordo negociado há 463 anos está representado no brasão municipal por uma canoa com cinco líderes indígenas; trégua breve também deu origem a uma das lendas mais conhecidas da cidade

 

Ubatuba tem nesta segunda-feira (14) o feriado municipal da Paz de Iperoig. A data recorda o acordo negociado em 1563 entre portugueses e lideranças indígenas na antiga aldeia de Iperoig, localizada na região onde posteriormente se formaria a cidade.

O episódio costuma ser apresentado como o primeiro tratado de paz das Américas e como um acontecimento decisivo para a manutenção do território sob domínio português. Uma análise histórica mais ampla, entretanto, revela uma trégua limitada, cercada por conflitos, escravização, interesses coloniais e promessas que não impediram novos ataques contra os povos indígenas.

Séculos depois, essa contradição também alimentou a chamada “Maldição de Cunhambebe”: uma narrativa segundo a qual o líder tupinambá teria condenado as terras de Iperoig ao fracasso depois que os portugueses romperam as promessas feitas aos indígenas.

Ilustração artística relacionada aos conflitos e às negociações entre europeus e povos indígenas no litoral durante o século XVI.

 

POR QUE 14 DE SETEMBRO É FERIADO?

O dia 14 de setembro consta no calendário oficial de Ubatuba como feriado municipal da Paz de Iperoig.

A data é tradicionalmente relacionada ao encerramento das negociações realizadas em 1563 e ao retorno do padre José de Anchieta para São Vicente, depois de permanecer durante meses entre os indígenas como garantia de que os portugueses cumpririam os termos discutidos.

Os Padres e Anchieta e Nóbrega na Praia de Iperoig. Ilustração de Ivan Wasth Rodrigues. História do Brasil em Quadrinhos, 1 parte (1959)

Embora diferentes versões afirmem que um tratado foi “assinado”, não é conhecido um documento formal preservado com a assinatura das partes. Por isso, pesquisadores também descrevem o episódio como acordo, armistício ou trégua de Iperoig.

O CONFLITO ANTES DA PAZ

No século XVI, o litoral entre os atuais estados de São Paulo e Rio de Janeiro era ocupado por diferentes povos indígenas, entre eles grupos tupinambás chamados de tamoios pelos portugueses.

A palavra “tamuya” pode ser traduzida como “avô”, “mais velho” ou “antigo”. O termo foi utilizado para identificar a aliança entre diferentes lideranças e aldeias que resistiam ao avanço da colonização.

 

O Último Tamoio – Rodolfo Amoedo, 1883

Com a expansão portuguesa, aumentaram as capturas de indígenas para trabalho escravizado, a ocupação de territórios, a destruição de aldeias e os conflitos com os povos originários.

Os portugueses mantinham alianças com tupiniquins e temiminós. Parte dos tupinambás, por sua vez, aproximou-se dos franceses, que disputavam com Portugal o controle da região da Baía de Guanabara.

A chamada Confederação dos Tamoios não funcionava como um Estado centralizado. Era uma rede de alianças entre aldeias e lideranças que compartilhavam determinados interesses, mas que também podiam divergir sobre a guerra e as negociações.

ANCHIETA E NÓBREGA CHEGAM A IPEROIG

Em 1563, os jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta partiram para Iperoig com a missão de negociar a interrupção dos ataques.

As lideranças indígenas apresentaram reivindicações como a libertação dos indígenas mantidos em cativeiro, o fim das invasões e a interrupção da escravização promovida pelos colonizadores.

As negociações envolveram chefes como Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí. Não havia consenso entre as aldeias. Algumas lideranças aceitavam discutir uma trégua, enquanto outras desconfiavam das promessas portuguesas e defendiam a continuidade da resistência.

Nóbrega retornou a São Vicente acompanhado de Cunhambebe para negociar as condições do acordo. Anchieta permaneceu em Iperoig como uma espécie de refém e garantia da continuidade das conversas.

É desse período a tradição segundo a qual Anchieta teria escrito milhares de versos dedicados à Virgem Maria nas areias da praia, memorizando o conteúdo antes que as palavras fossem apagadas pelo mar. Pesquisadores observam que o episódio foi transformado ao longo do tempo em uma narrativa religiosa e heroica, sem comprovação integral de todos os detalhes.

UMA PAZ QUE NÃO ENCERROU A GUERRA

A versão tradicional afirma que o entendimento alcançado em 14 de setembro de 1563 interrompeu os ataques e garantiu a unidade territorial e religiosa do futuro Brasil.

A interpretação histórica contemporânea apresenta um cenário mais complexo. O acordo não foi aceito por todas as aldeias e teria alcançado principalmente os grupos ligados a Iperoig. Em outras regiões, especialmente na Baía de Guanabara, os confrontos continuaram.

Nos anos seguintes, forças portuguesas e seus aliados avançaram contra aldeias tamoias. Houve destruição de comunidades, mortes, prisões e escravização dos sobreviventes. A própria Prefeitura de Ubatuba reconhece, em sua página sobre a história da cidade, que o tratado representou a aniquilação de algumas tribos.

Por isso, parte dos pesquisadores considera inadequado tratar o episódio como uma paz definitiva. O que ocorreu foi uma trégua temporária e uma reorganização das alianças antes da continuidade da guerra colonial.

 

A CANOA E OS CINCO REMADORES DO BRASÃO DE UBATUBA

A memória da Paz de Iperoig não está presente apenas no feriado. Ela também aparece em um dos principais símbolos oficiais de Ubatuba.

A canoa na parte inferior do brasão de Ubatuba possui cinco remadores: Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí.

Na parte inferior do brasão municipal existe uma canoa navegando no mar com cinco remadores. Segundo a descrição oficial da Prefeitura, a embarcação recorda a presença e a atividade dos povos indígenas estabelecidos na região.

Os cinco remadores representam Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí, apresentados oficialmente como líderes das cinco tribos tupinambás que formaram a Confederação dos Tamoios.

A imagem possui uma importância que muitas vezes passa despercebida: cinco lideranças da resistência indígena permanecem representadas no próprio brasão de Ubatuba.

A cruz com resplendor dourado recorda a Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba, nome recebido pela vila depois do avanço da ocupação portuguesa. Os ramos de ubá fazem referência aos caniços silvestres associados à origem indígena do nome do município.

O brasão passou por modificações em 1957 e 1967. Na última mudança, determinada pela Lei Municipal nº 120, foi acrescentada a frase em latim “Unitatem Servavit Patriae Et Fidei”, traduzida como “Conservou a Unidade da Pátria e da Fé”.

A inscrição reforçou a versão oficial segundo a qual a Paz de Iperoig teria impedido a divisão do território entre portugueses e franceses.

 

QUEM FOI CUNHAMBEBE?

Cunhambebe tornou-se uma das figuras mais conhecidas da resistência tupinambá contra a ocupação portuguesa. Relatos históricos o apresentam como uma liderança de grande influência entre diferentes aldeias do litoral.

Cunhambebe tornou-se símbolo da resistência tupinambá contra o avanço da colonização portuguesa.

Uma questão, porém, costuma provocar confusão. Pesquisas históricas apontam que existiram pelo menos dois caciques conhecidos como Cunhambebe.

O primeiro foi o líder descrito pelo mercenário alemão Hans Staden e teria morrido em 1555, antes da Paz de Iperoig. Outro Cunhambebe, citado nos registros relacionados a Anchieta, participou das mobilizações e das negociações indígenas da década seguinte.

A existência de duas lideranças com o mesmo nome ajudou a misturar personagens, acontecimentos históricos e tradições populares. O próprio Blog do Ubatubense destaca a interpretação de que seriam pai e filho: o primeiro contemporâneo de Hans Staden e o segundo ligado às negociações de 1563.

A “MALDIÇÃO DE CUNHAMBEBE”

Uma das narrativas mais conhecidas de Ubatuba afirma que Cunhambebe, arrependido por ter acreditado nas promessas portuguesas, teria lançado uma maldição contra os invasores e seus descendentes.

Segundo a lenda, as terras de Iperoig seriam transformadas em terras do fracasso, onde nada prosperaria e tudo o que fosse iniciado ficaria inacabado.

A história passou a ser associada a ciclos econômicos, projetos públicos e empreendimentos que começaram com entusiasmo em Ubatuba, mas não foram concluídos ou tiveram resultados inferiores aos esperados.

A versão atualmente divulgada foi popularizada por uma crônica do arquiteto Renato Nunes, publicada em 2001 no jornal “A Cidade”. A própria Secretaria Municipal de Turismo apresenta o relato como uma lenda.

Não há, nas fontes históricas conhecidas, documento produzido no século XVI que registre Cunhambebe pronunciando essa maldição. Portanto, a declaração não pode ser tratada como fato historicamente comprovado.

A lenda também afirma que a maldição somente terminaria quando a Paz de Iperoig deixasse de ser comemorada exclusivamente como uma vitória dos jesuítas e passasse a reconhecer a resistência, o sofrimento e o papel dos povos indígenas.

 

ENTRE A HOMENAGEM E A TRAIÇÃO

A Paz de Iperoig permanece como um dos acontecimentos mais importantes da formação histórica de Ubatuba. Ao mesmo tempo, a data provoca uma discussão sobre a maneira como a colonização foi contada durante séculos.

De um lado está a narrativa oficial de um acordo que teria garantido a unidade territorial do Brasil. Do outro, estão as consequências enfrentadas pelos povos indígenas depois da trégua: aldeias destruídas, territórios ocupados, escravização e mortes.

A canoa com cinco remadores no brasão ajuda a revelar uma parte dessa história. Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí não foram personagens secundários de uma negociação conduzida apenas por portugueses. Eles representavam povos que já ocupavam o território e tentavam defender sua liberdade, suas aldeias e seu modo de vida.

Já a “Maldição de Cunhambebe”, mesmo sem comprovação documental, tornou-se uma forma popular de lembrar que a paz celebrada pelos vencedores não teve o mesmo significado para aqueles que perderam terras e parte de seu povo.

Entre o feriado, o brasão e a lenda, o dia 14 de setembro mantém aberta uma questão histórica: quem conta a origem de Ubatuba e quais personagens foram deixados fora dessa narrativa.

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Francisco Trevisan

Jornalista, MTB 0096161/SP, graduado em Comunicação Social pela Unitau e editor do UBA24. Atua na cobertura de Ubatuba e do Litoral Norte paulista.

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