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Corrida de canoa que nasceu no Itaguá acontece em águas poluídas de Ubatuba

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Corrida que nasceu em 1957 chega a 2026 sob bandeira vermelha da poluição

 

Tradição caiçara completa 69 anos em uma praia onde o ponto próximo ao Rio Acaraú segue impróprio para banho; obras, investimentos e promessas de saneamento ainda não eliminaram um problema antigo de Ubatuba.

A cena deste domingo (20) no Itaguá carrega um contraste difícil de ignorar. De um lado, canoas caiçaras, remadores e famílias preservando uma tradição iniciada há quase sete décadas. Do outro, a placa vermelha da Cetesb avisando: “imprópria para banho”.

É justamente nessas águas que nasceu, em 1957, a primeira Corrida de Canoas Nossa Senhora das Dores.

Corrida canoa Itaguá 2025 - Francisco Trevisan
Corrida canoa Itaguá 2025 – Francisco Trevisan

A Fundart registra que a competição surgiu na Enseada do Itaguá inspirada nas disputas improvisadas entre pescadores que, depois do trabalho no mar, desafiavam uns aos outros na volta para a praia. Em 2026, são 69 anos de história.

O problema não é a corrida. Muito menos os remadores.

São eles que mantêm viva uma manifestação cultural que atravessou gerações. A contradição está em outra parte: uma das tradições mais antigas de Ubatuba continua sendo realizada em um trecho cuja qualidade da água permanece comprometida décadas depois do início da competição.

Cetesb mantém trecho do Itaguá impróprio

O boletim da Cetesb atualizado em 19 de setembro de 2026 mostra situações diferentes nos dois pontos monitorados no Itaguá.

Praia do Itaguá Ubatuba com bandeira vermelha imprópria banho Cetesb - Francisco Trevisan
Praia do Itaguá Ubatuba com bandeira vermelha imprópria banho Cetesb – Francisco Trevisan

O ponto situado na Avenida Leovigildo Dias Vieira, altura do nº 240, aparece próprio. Já o ponto da mesma avenida na altura do nº 1724, próximo à região de influência do Rio Acaraú, aparece impróprio para banho.

É nesse contexto que a imagem registrada durante a corrida chama atenção: canoas tradicionais dividindo o cenário com a sinalização vermelha de qualidade da água.

A diferença entre os dois pontos também mostra por que não é correto dizer simplesmente que “todo o Itaguá” apresenta exatamente a mesma condição. A balneabilidade é medida em locais específicos. Mas também não permite minimizar um problema que se repete justamente na área influenciada pelo principal curso d’água que desemboca naquele trecho.

Próximo ao Acaraú, situação é crítica há anos

O Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte públicou em junho deste ano um diagnóstico direto sobre a situação.

Segundo o órgão, o ponto do Itaguá mais próximo ao Rio Acaraú foi classificado como “péssimo” em todos os anos entre 2016 e 2025. Essa classificação é aplicada quando uma praia fica imprópria em mais da metade do período analisado.

O Comitê aponta ainda que parte importante da contaminação da praia chega justamente pelo Acaraú.

Dados referentes a 2024 deram ao rio Índice de Qualidade da Água de 28, considerado ruim, e Índice de Estado Trófico de 63, classificado como eutrófico. O diagnóstico também registra que o rio atravessa áreas densamente urbanizadas e recebe efluentes domésticos tratados e não tratados ao longo de seu percurso.

O documento é claro ao afirmar que a recuperação da praia do Itaguá depende da recuperação do próprio Rio Acaraú.

Entre as medidas apontadas estão ampliação da coleta e do tratamento de esgoto, eliminação de ligações clandestinas, melhoria da drenagem, regularização de ocupações, recuperação dos cursos d’água e ampliação do monitoramento.

Mudança no ponto de coleta virou motivo de desconfiança

A balneabilidade do Itaguá ganhou ainda mais repercussão neste ano depois de uma mudança envolvendo o ponto de monitoramento da Cetesb.

Em abril esta reportagem apuoru que a alteração teria ocorrido a pedido da Prefeitura de Ubatuba. A mudança provocou questionamentos de moradores sobre se a nova posição poderia melhorar artificialmente os resultados da praia.

O episódio colocou a administração municipal no centro de uma discussão delicada: para uma população acostumada a ver bandeiras vermelhas no Itaguá, mudar o local de referência sem que o problema ambiental esteja resolvido inevitavelmente gera dúvidas.

Os dados atuais, entretanto, mostram que a discussão não pode ser reduzida à posição física da placa.

bandeira vermelha itaguá ubatuba
Antiga localização da bandeira vermelha na foz do rio Acaraú na praia do Itaguá em Ubatuba

O monitoramento oficial continua identificando situação imprópria no ponto próximo ao Acaraú, enquanto estudos do Comitê de Bacias atribuem ao rio influência importante sobre a contaminação daquela região.

Também não há base técnica, nas fontes consultadas pelo UBA24, para afirmar como fato que o píer de concreto funcione como um “muro” capaz de impedir a poluição de atingir determinado trecho da praia ou de conduzi-la para longe da costa.

Essa é uma interpretação levantada no debate público, mas que exigiria estudo hidrodinâmico específico para ser comprovada.

O que está comprovado é mais simples: com píer, sem píer ou com mudança de ponto de monitoramento, a influência do Acaraú sobre o Itaguá continua aparecendo nos levantamentos técnicos.

Quase R$ 600 milhões anunciados e bandeira ainda aparece

Nos últimos anos, Ubatuba recebeu anúncios importantes de investimentos em saneamento.

Em junho de 2025, foi inaugurada a ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto do Itaguá, que passou a operar com capacidade de 350 litros por segundo, cerca de 20% acima da capacidade anterior.

Na mesma ocasião, Prefeitura e Sabesp anunciaram quase R$ 600 milhões em investimentos até 2029, incluindo 128 quilômetros de redes coletoras, 45 estações elevatórias, 17 mil novas ligações domiciliares e três novas estações de tratamento.

A Prefeitura informa que as obras fazem parte dos programas Onda Limpa e Água no Litoral Norte e estão alinhadas ao Marco Legal do Saneamento, com intenção de antecipar para 2029 metas originalmente estabelecidas para 2033.

O volume de investimentos é relevante. Mas a balneabilidade é medida no presente.

E, no fim de semana em que a corrida tradicional volta ao seu berço histórico, o ponto próximo ao Acaraú continua vermelho.

Não é um problema criado pelos remadores

É importante deixar isso claro.

A realização da Corrida de Canoa Caiçara não criou a poluição do Itaguá. Os remadores não são responsáveis pela qualidade da água e tampouco podem carregar a responsabilidade por um problema relacionado à infraestrutura de saneamento, ocupação urbana, ligações irregulares, drenagem e gestão ambiental.

Ao contrário: a corrida é parte da história do bairro.

Quando a primeira competição foi realizada em 1957, nasceu de uma prática cotidiana de pescadores e acabou se tornando uma das referências culturais de Ubatuba.

A bandeira vermelha de 2026 não diminui essa tradição. Ela expõe o ambiente no qual essa tradição precisa sobreviver.

E em pleno ano eleitoral?

O contraste também ocorre durante a campanha das Eleições Gerais de 2026.

Desde 16 de agosto, candidatas e candidatos estão autorizados pela Justiça Eleitoral a realizar propaganda nas ruas e na internet. Ubatuba, como outras cidades, passou a conviver com material eleitoral, campanhas digitais, pedidos de voto e visitas políticas.

O saneamento, porém, permanece como uma questão concreta do município.

Nas fontes públicas consultadas para esta reportagem, o UBA24 não localizou até agora uma proposta específica de candidatura destinada à recuperação do Rio Acaraú e à retomada permanente da balneabilidade do Itaguá.

Isso não significa que candidatos não possam ter propostas gerais para saneamento, meio ambiente ou infraestrutura. Significa apenas que, até esta publicação, não foi encontrada uma iniciativa pública específica para esse problema.

A responsabilidade pelo saneamento também não cabe a uma única autoridade. Há obrigações da concessionária responsável pelos serviços, fiscalização e acompanhamento municipal, regulação, políticas estaduais e monitoramento ambiental realizado pela Cetesb.

Por isso, transformar o problema apenas em disputa partidária também esconderia uma realidade: o Itaguá atravessou diferentes administrações e continua apresentando histórico crítico de balneabilidade.

 

O verão está próximo

O calendário aumenta a pressão.

Em poucos meses, Ubatuba entrará novamente no período de verão, quando a população flutuante cresce e a infraestrutura de saneamento é submetida a uma demanda muito maior.

Os investimentos anunciados têm horizonte até 2029. As metas do Marco Legal do Saneamento avançam sobre a próxima década.

Mas a corrida aconteceu neste domingo.

E a placa vermelha também está lá neste domingo.

Sessenta e nove anos depois da primeira Corrida de Canoas Nossa Senhora das Dores, o Itaguá mantém viva uma tradição que nasceu de seus pescadores — enquanto o ponto próximo ao Rio Acaraú permanece classificado pela Cetesb como impróprio para banho.

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Francisco Trevisan

Jornalista, MTB 0096161/SP, graduado em Comunicação Social pela Unitau e editor do UBA24. Atua na cobertura de Ubatuba e do Litoral Norte paulista.

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