
Sob as pedras da Curva da Felicidade, o abandono virou moradia na Praia Grande de Ubatuba
Abrigo improvisado em área de risco na Praia Grande expõe falhas na assistência social, na segurança, na fiscalização e na coordenação da Prefeitura de Ubatuba
A Curva da Felicidade tem felicidade apenas no nome. Embaixo de seu mirante, entre grandes blocos de pedra e uma encosta com terra exposta, um homem montou uma moradia improvisada com lona, utensílios de cozinha, recipientes, roupas, calçados, sacolas e outros objetos.
O registro chegou ao UBA24 nesta quinta-feira, 6 de agosto, e não mostra apenas uma pessoa em situação de vulnerabilidade. Mostra o retrato de uma cidade que deixou o problema crescer até o abandono ocupar um de seus principais cartões-postais.
O abrigo está instalado abaixo do Mirante da Praia Grande, em uma área cercada por pedras de grandes dimensões. Na parte superior, é possível observar solo avermelhado exposto entre a vegetação e os blocos rochosos. Somente uma avaliação técnica poderá determinar se existe risco imediato de deslizamento ou desprendimento, mas a situação exige uma vistoria urgente da Defesa Civil.
A preocupação não é exagerada. Em janeiro de 2024, a própria Defesa Civil de Ubatuba realizou a interdição parcial do mirante após identificar que o leito carroçável estava cedendo e colocava em risco as pessoas que transitavam pelo local. Na ocasião, a Prefeitura informou que não havia previsão para a liberação total da área. O registro permanece disponível no portal oficial do município.
Dois anos depois, existe uma pessoa vivendo justamente sob as pedras desse ponto.
Será preciso esperar uma tragédia para que alguém resolva aparecer?
Ubatuba já conhece o peso dessa pergunta. Em fevereiro de 2023, uma menina de sete anos morreu no Perequê-Açu depois que uma rocha atingiu a residência onde ela estava durante as fortes chuvas. O episódio deveria ter deixado uma lição definitiva sobre ocupações próximas a encostas e grandes blocos de pedra.
Agora, com previsão de rajadas que podem atingir entre 60 e 70 km/h nesta sexta-feira, segundo a própria Defesa Civil de Ubatuba, o homem permanecerá no local? A área foi vistoriada? Existe risco de queda de galhos, pedras ou movimentação do terreno? Foi oferecido acolhimento? Quem assumirá a responsabilidade se acontecer alguma coisa?
O problema não começou agora
O UBA24 já registrou ocupações e acampamentos improvisados na Praça 13 de Maio, no Farol, nas proximidades do letreiro “Eu Amo Ubatuba”, no píer do Itaguá e perto da Praça da Baleia.
Em abril de 2024, nossa reportagem já alertava para o aumento do número de pessoas vivendo nas ruas de Ubatuba. Também acompanhamos, em outros períodos, operações integradas de abordagem, limpeza, encaminhamento e atendimento social.
Durante 2025, porém, o UBA24 não acompanhou mutirões integrados semelhantes com a mesma frequência. Em 2026, os reflexos estão diante dos olhos: pessoas instaladas em praças, píeres, áreas turísticas e, agora, debaixo de pedras em uma encosta que já exigiu interdição preventiva.
A própria Prefeitura informou, em fevereiro de 2024, que realizava abordagens e encaminhava pessoas para a Casa de Passagem, onde seriam oferecidos banho, pernoite, alimentação, retirada de documentos, assistência social e transporte para a cidade de origem aos interessados. Naquela operação, oito pessoas foram abordadas na região sul.
A estrutura anunciada ainda funciona? Quantas vagas existem? Quantas pessoas foram atendidas em 2025 e em 2026? Quantas aceitaram acolhimento? Quantas recusaram? Quantas voltaram às ruas? Existe acompanhamento depois do primeiro contato?
Sem respostas e resultados, abordagem social vira apenas fotografia para divulgação institucional.
Solidariedade é necessária, mas não substitui política pública
Há moradores que entregam comida, roupas, cobertores e produtos de higiene às pessoas em situação de rua. Essa solidariedade é humana, legítima e, muitas vezes, evita que alguém passe fome ou frio.
Mas doar alimento não substitui assistência social. Entregar um cobertor não substitui atendimento de saúde mental. Oferecer roupa não resolve dependência química, falta de documentos, rompimento familiar, desemprego, ausência de moradia ou recusa de acolhimento.
A solidariedade não pode virar desculpa para a omissão do poder público.
Também é necessário perguntar se a ajuda isolada, sem acompanhamento técnico e sem uma porta real de saída, acaba apenas mantendo a pessoa nas mesmas condições. Não porque oferecer alimento seja errado, mas porque ninguém reconstrói a própria vida apenas com uma marmita, uma blusa e um cobertor.
É preciso abordagem contínua, diagnóstico individual, atendimento de saúde, tratamento para dependência quando necessário, documentação, acolhimento, reinserção familiar e profissional, fiscalização dos espaços públicos e acompanhamento dos casos.
Estar em situação de rua não é crime. Da mesma forma, vulnerabilidade social não pode servir para atribuir automaticamente a alguém a prática de furtos ou o uso de drogas. Cada ocorrência deve ser investigada individualmente.
Mas o Município também não pode ignorar problemas de segurança, consumo de entorpecentes, pequenos furtos, acúmulo de resíduos, uso de fogo, ocupação de espaços públicos e riscos sanitários quando eles forem constatados. Direitos precisam caminhar com responsabilidade, fiscalização e proteção da coletividade.
Não é problema de um único secretário
A situação não pertence exclusivamente à Secretaria de Assistência Social.
A Defesa Civil precisa avaliar o risco geológico. A Saúde precisa verificar as condições físicas e mentais da pessoa. A Assistência Social deve realizar a abordagem e oferecer acolhimento. A Segurança Pública precisa garantir a proteção do local e da população. Os serviços municipais devem cuidar da limpeza. O Turismo precisa defender os espaços visitados por moradores e visitantes.
Quando todas essas áreas falham ao mesmo tempo, não existe um único secretário para carregar a culpa. Existe uma gestão descoordenada.
Secretarias municipais não são ilhas. Todas integram a Prefeitura e são coordenadas pelo Poder Executivo, comandado pela prefeita Flavia Pascoal. Cabe à chefe do Executivo cobrar integração, metas, resultados e respostas.
Como um dos pontos turísticos mais conhecidos de Ubatuba chegou a esse estado? Quem permitiu que uma moradia improvisada fosse instalada sob as pedras? Há quanto tempo o homem vive ali? Alguém da Prefeitura já esteve no local? Há condições mínimas de higiene? Como são descartados resíduos? Existe fogo sendo utilizado para cozinhar? Para onde vai o esgoto produzido no acampamento?
E, principalmente: alguém retirará essa pessoa da área de risco antes da próxima chuva ou a Prefeitura esperará que o abandono termine em tragédia?
A pessoa que aparece na fotografia não precisa de condenação pública. Precisa de atendimento, proteção e uma saída digna. A cidade, por sua vez, precisa de fiscalização, segurança, limpeza e gestão.
Deixar um ser humano vivendo sob pedras não é acolhimento. Deixar um cartão-postal se transformar em acampamento também não é política social.
É apenas abandono — do homem, do espaço público e da própria cidade.