
“Máfia dos aplicativos”: denúncia de perseguição, ameaças e corridas falsas chega à Polícia Civil em Ubatuba
Motorista afirma que foi cercado por outros profissionais, ameaçado e obrigado a deixar a cidade; reportagem teve acesso ao boletim de ocorrência e ao áudio do denúnciante
Uma denúncia de perseguição, ameaças e suposta manipulação de corridas por motoristas de aplicativo chegou à Polícia Civil de Ubatuba. O caso envolve um profissional de Caraguatatuba que afirma ter sido cercado por outros condutores e pressionado a deixar de trabalhar no município.
Por medo de represálias, o motorista pediu para não ser identificado. O UBA24 teve acesso ao boletim de ocorrência registrado na delegacia e ao áudio no qual ele descreve os episódios.
Segundo o denúnciante, ele trabalha em Ubatuba há aproximadamente um ano e meio. Apesar de morar em Caraguatatuba, afirma que escolheu atuar na cidade vizinha em razão da demanda e dos valores oferecidos pelas corridas.
A situação, entretanto, teria mudado após abordagens de outros motoristas que alegaram que apenas profissionais de Ubatuba deveriam trabalhar no município durante a baixa temporada.
Primeira abordagem terminou na delegacia
O primeiro episódio foi registrado em boletim de ocorrência no dia 13 de agosto.
Segundo o documento, por volta das 5h, o motorista recebeu uma solicitação de corrida com embarque na Avenida Iperoig.
Enquanto se deslocava para buscar o passageiro, ele seguiu pela Rua Liberdade e, nas proximidades da Avenida Rio Grande do Sul, foi cercado por três veículos.
De acordo com o depoimento, um dos automóveis era um Fiat Cronos branco. Os outros veículos eram vermelho e preto, mas não tiveram os modelos e as placas identificados.
Os ocupantes teriam determinado que o profissional descesse do carro para conversar.
Durante a abordagem, segundo o boletim, os envolvidos questionaram a presença de motoristas de outras cidades em Ubatuba e afirmaram que esses profissionais estariam prejudicando os ganhos obtidos com a tarifa dinâmica.
O motorista explicou que mora em Caraguatatuba, mas trabalha regularmente em Ubatuba. Mesmo assim, segundo seu relato, o grupo exigiu que ele deixasse a cidade.
Ainda conforme o registro, os suspeitos disseram que, se o encontrassem novamente, “iriam trocar outra ideia”, mas que “a conversa seria diferente”.
O profissional afirma que interpretou a declaração como ameaça.
Perseguição seguiu até as proximidades da Praia Grande
Depois da abordagem, o motorista relata que deixou o local e seguiu em direção à Rodovia Rio-Santos.
Segundo o boletim de ocorrência, os três veículos passaram a acompanhá-lo, aparentemente para verificar se ele realmente sairia de Ubatuba.
A perseguição teria continuado até as proximidades da Praia Grande.
O motorista afirma que conseguiu se desvencilhar dos automóveis, retornou e procurou a delegacia para registrar o caso.
A ocorrência foi classificada como ameaça. Os envolvidos ainda não foram identificados.
Motorista relata novo cerco com aproximadamente 30 pessoas
No áudio encaminhado ao UBA24, o profissional afirma que voltou a ser abordado na quarta-feira, 19 de agosto, na região do Perequê-Açu.
Segundo ele, aproximadamente 30 motoristas participaram de um novo cerco e exigiram que deixasse Ubatuba.
Após a abordagem, o denúnciante foi encontrar um amigo em um posto de combustíveis próximo ao Shibata, na região da Rodovia Oswaldo Cruz.
Ele afirma que outros veículos chegaram ao local em comboio e que tanto ele quanto o amigo foram pressionados a sair da cidade.
Os envolvidos também teriam pedido que os dois transmitissem um recado a outros profissionais de Caraguatatuba: motoristas de fora não seriam aceitos trabalhando em Ubatuba.
O denúnciante afirma ainda que o grupo fotografou a placa do seu carro, registrou imagens do seu perfil no aplicativo e fez novas ameaças.
Segundo o relato, ele foi avisado de que poderia sofrer agressões e ter o veículo danificado caso voltasse a realizar corridas na cidade.
Suspeita de corridas falsas e manipulação da tarifa dinâmica
A denúncia também menciona a possibilidade de chamadas falsas utilizadas para identificar motoristas e interferir na tarifa dinâmica.
No boletim de ocorrência, o profissional informou que observou diversas solicitações que, segundo sua percepção, poderiam estar relacionadas a grupos interessados em aumentar artificialmente a demanda e os valores das viagens.
Entretanto, o próprio registro esclarece que ele não possui elementos suficientes para confirmar a autoria ou a efetiva existência de fraude.
No áudio, o motorista também afirma que haveria um grupo fechado de comunicação com aproximadamente 360 participantes e que alguns profissionais utilizariam mais de uma conta.
Essas alegações ainda precisam ser verificadas e não comprovam, por si só, a existência de uma organização criminosa ou de manipulação efetiva das corridas.