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Nova iluminação tira o Caisão da escuridão, mas estrutura histórica de Ubatuba continua à espera de uma luz no fim do túnel

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Mais de nove braços de LED atendem a uma antiga demanda de segurança; acidente com carro em abril e deterioração do píer mostram que revitalização ainda precisa avançar

 

Um dos pontos históricos e turísticos mais conhecidos de Ubatuba ganhou uma nova rede de iluminação. Mais de nove braços com luminárias de LED foram instalados no acesso ao Caisão, ampliando a visibilidade e a segurança para pescadores, moradores e visitantes que frequentam o local, principalmente durante a noite.

A informação foi divulgada pela empresa Ubaposte nas redes sociais. Segundo a publicação, o serviço faz parte de uma revitalização planejada pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e pela Prefeitura de Ubatuba.

A reportagem do UBA24 trabalha com a possibilidade de que a instalação tenha sido concluída na sexta-feira (28), mas a data ainda não foi oficialmente confirmada. Até a publicação desta matéria, a Prefeitura também não havia apresentado o serviço em seus comunicados diários nem informado o investimento, a origem dos recursos, a quantidade exata de luminárias ou as demais etapas da revitalização.

A iluminação atende uma reivindicação antiga de quem utiliza o espaço. O Caisão recebe pescadores, famílias, turistas, praticantes de atividades físicas e pessoas que procuram o local para observar a paisagem e o pôr do sol.

O avanço, contudo, resolve apenas uma parte dos problemas. Embora o acesso esteja mais iluminado, a estrutura histórica do antigo cais continua deteriorada e ainda não existe, publicamente, um cronograma detalhado para sua recuperação completa.

 

Mais iluminação e segurança

De acordo com a publicação da Ubaposte, foi realizada uma extensão da rede elétrica e instalados mais de nove braços de LED.

Além de facilitar a circulação durante a noite, a iluminação permite identificar melhor os limites da via, os desníveis, a faixa de areia e os acessos próximos ao antigo píer.

A medida é importante porque o Caisão possui áreas abertas, pontos elevados e trechos próximos ao mar. Durante anos, frequentadores reclamaram da falta de iluminação adequada e da sensação de insegurança no período noturno.

A instalação das luminárias também pode aumentar o movimento no local. Por isso, a melhoria torna ainda mais urgente a adoção de outras medidas, como recuperação de proteções laterais, instalação de sinalização, inspeção estrutural e definição clara das áreas que podem ou não ser utilizadas pelo público.

 

Iluminar não significa recuperar

A nova iluminação não representa a restauração do Caisão. São intervenções diferentes.

A extensão da rede elétrica melhora o acesso e a utilização do entorno. Já a recuperação da estrutura histórica exigiria uma avaliação técnica mais ampla, com inspeção do concreto, das armaduras de aço, dos pilares, da parte superior do píer e dos pontos afetados pela ação do mar.

Visualmente, os pilares ainda sustentam o conjunto, mas essa constatação não substitui um laudo de engenharia. A reportagem acompanha há anos a perda progressiva de partes da superfície e a deterioração de diferentes trechos do cais.

Estruturas de concreto construídas em ambiente marítimo ficam expostas permanentemente à maresia, à umidade e aos sais presentes na água. Quando os cloretos atingem a armadura de aço, podem provocar corrosão. O aço corroído aumenta de volume, pressiona o concreto e favorece o aparecimento de rachaduras e o desprendimento de partes da estrutura.

Esse é um processo comum em construções marítimas antigas, mas somente uma inspeção especializada pode apontar as causas, a extensão dos danos e a capacidade atual de sustentação do Caisão.

Por esse motivo, não é possível afirmar apenas pela aparência que os pilares estão em condições adequadas ou que a parte superior pode continuar sendo utilizada normalmente.

 

Carro caiu de aproximadamente três metros

A preocupação com a segurança do entorno ganhou ainda mais importância depois de um acidente registrado na noite de 1º de abril de 2026.

Por volta das 21h10, um carro caiu de uma altura aproximada de três metros no Caisão e parou capotado na faixa de areia. Um casal estava dentro do veículo e, apesar da gravidade da queda, não sofreu ferimentos.

O caso foi divulgado pelo T7 News e também por outros veículos da região.

 

As circunstâncias exatas do acidente não foram oficialmente esclarecidas. Por isso, não é possível atribuir a queda diretamente à falta de iluminação. O episódio, entretanto, expôs os riscos existentes em uma área com desníveis acentuados e circulação de veículos próxima à praia.

A instalação das luminárias pode ajudar os motoristas a enxergarem melhor os limites do acesso durante a noite, mas a prevenção de novos acidentes também depende de barreiras físicas, defensas, sinalização refletiva e organização da circulação.

 

Uma obra estadual iniciada em 1940

A história do Caisão está ligada à tentativa de estruturar o Porto de Ubatuba para receber embarcações, cargas e atividades pesqueiras.

Em 10 de dezembro de 1940, o então interventor federal no Estado de São Paulo, Adhemar de Barros, assinou o Decreto nº 11.672, autorizando a contratação da Companhia Nacional de Construções Civis e Hidráulicas.

Caisão – Francisco Trevisan

O contrato previa a construção de um enrocamento de acesso e de um trapiche para atracação no Porto de Ubatuba. O valor global foi fixado em 841 contos de réis, com a destinação inicial de 400 contos de réis para o começo das obras, conforme o decreto disponível no acervo da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Relatos históricos locais apontam que os projetos foram analisados entre 1940 e 1941 e que parte dos componentes utilizados na construção teria sido produzida no Rio de Janeiro e transportada até Ubatuba.

A estrutura nasceu com uma função diferente da utilização turística observada atualmente. O objetivo era permitir a aproximação de embarcações e criar condições para o embarque e desembarque de mercadorias.

Caisão Ubatuba – Marcelo Caltabiano

Em 1949, outro decreto estadual declarou de utilidade pública duas áreas que somavam 39.545 metros quadrados. Os terrenos seriam utilizados para proteger o Córrego do Trapiche, responsável pelo abastecimento de água das embarcações que frequentavam o Porto de Ubatuba.

 

Pesca, gelo e desembarque de sardinhas

Com o passar dos anos, o Caisão tornou-se uma referência para a atividade pesqueira. Relatos reunidos por pesquisadores da história local descrevem a existência de uma fábrica de gelo, espaços para armazenamento de redes e equipamentos, instalações administrativas e áreas de apoio aos pescadores.

Caisão Ubatuba – Marcelo Caltabiano

Também há registros de grandes desembarques de sardinha. Em determinados períodos, toneladas de pescado chegavam diariamente ao cais, movimentando trabalhadores, embarcações e comerciantes.

O local chegou a contar com estruturas de fornecimento de água e combustível, além de áreas de convivência utilizadas pelos pescadores. Parte dessa história foi preservada por antigos moradores e trabalhadores entrevistados por pesquisadores locais, como mostra o levantamento do site Curiosidades de Ubatuba.

A redução dos cardumes de sardinha, as mudanças no setor pesqueiro e a falta de continuidade dos investimentos contribuíram para o enfraquecimento da função portuária.

Sem a mesma movimentação econômica e sem manutenção permanente, o Caisão passou a sofrer um processo contínuo de deterioração. O espaço permaneceu frequentado pela população, mas perdeu gradualmente suas estruturas de apoio.

 

Tentativa de fechamento em 2016

Em julho de 2016, o Instituto de Pesca, órgão ligado ao Governo do Estado de São Paulo, tentou fechar o acesso ao Caisão com a instalação de portões.

A Prefeitura de Ubatuba embargou a medida e determinou a retirada das estruturas. Guardas municipais e equipes das secretarias de Obras e de Trânsito participaram da liberação do acesso.

Na época, a administração municipal afirmou publicamente que o Instituto de Pesca era responsável pela área e acusou o Estado de não realizar intervenções ou manutenção no local havia vários anos.

A Prefeitura também informou que tratava, desde 2014, com a Secretaria do Patrimônio da União uma possível municipalização da área, com o objetivo de assumir o espaço e viabilizar sua recuperação.

O impasse foi registrado em um comunicado oficial da Prefeitura publicado em 2016.

Aquele é o último registro oficial claro localizado pela reportagem que identificava o Instituto de Pesca e o Governo do Estado como responsáveis pela área. Até agora, não foi localizado um documento recente que confirme se a transferência definitiva ao município foi concluída.

Essa definição é fundamental porque determina quem deve contratar estudos, executar obras estruturais, estabelecer regras de acesso e responder pela conservação do píer.

 

Estrada recebeu aproximadamente R$ 2 milhões

O entorno do Caisão recebeu outra intervenção nos últimos anos.

Iniciadas em 2023, as obras de revitalização da Estrada do Caisão incluíram recapeamento, drenagem, recuperação de calçadas e construção de plataformas destinadas à pesca.

Segundo a Prefeitura de Ubatuba, o investimento foi de aproximadamente R$ 2 milhões, em uma parceria entre o município e o Governo do Estado, por meio do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos.

A empresa contratada foi a Ideal Infraestrutura e Montagem Ltda., vencedora da licitação nº 82/2022.

A intervenção melhorou a estrada e os espaços utilizados pelos pescadores, mas não correspondeu a uma restauração completa do antigo cais. A diferença é importante: recuperar o acesso não significa recuperar a estrutura de concreto construída sobre o mar.

 

O que ainda precisa ser esclarecido

A iluminação representa uma melhoria visível e atende uma demanda antiga da população. Para que seja possível compreender o alcance completo da revitalização anunciada, ainda faltam informações oficiais.

Entre os pontos que precisam ser detalhados estão:

  • a data exata da conclusão do serviço;
  • a quantidade total de braços e luminárias de LED instalados;
  • a potência e a área coberta pela nova iluminação;
  • o valor investido;
  • a origem dos recursos;
  • o contrato ou a ordem de serviço utilizados;
  • a responsabilidade pela manutenção da rede;
  • as próximas etapas da revitalização;
  • a existência de um laudo estrutural recente;
  • a situação atual da propriedade e da administração da área;
  • as condições de acesso à parte superior do píer;
  • a previsão de instalação de barreiras, guarda-corpos e sinalização;
  • a existência de projeto para recuperação definitiva do Caisão.

Uma conquista parcial

A chegada da iluminação deve ser reconhecida como um avanço. O serviço melhora a utilização noturna, aumenta a visibilidade e responde a uma reclamação antiga de moradores, pescadores e visitantes.

Mas o Caisão ainda precisa de uma solução completa.

A estrutura carrega mais de oito décadas da história portuária e pesqueira de Ubatuba. Também permanece como um dos principais pontos de observação da baía e de convivência da população.

O acidente com o carro em abril, os desníveis existentes e a deterioração progressiva do píer mostram que a revitalização não pode terminar na instalação das luminárias.

Depois de sair da escuridão, o Caisão ainda espera uma definição sobre responsabilidade, segurança e recuperação estrutural. A Prefeitura e o Governo do Estado precisam esclarecer o que será feito para que esse patrimônio deixe de ser apenas um cenário histórico em deterioração e volte a ser um espaço seguro, preservado e plenamente integrado à cidade.

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Francisco Trevisan

Jornalista, MTB 0096161/SP, graduado em Comunicação Social pela Unitau e editor do UBA24. Atua na cobertura de Ubatuba e do Litoral Norte paulista.

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