
A “máfia dos 80”: grupo tenta impedir motorista de trabalhar em área de Ubatuba
Vídeo registra tentativa de controlar uma área de tarifa dinâmica, frases de intimidação, ofensas xenofóbicas e a alegação de que o grupo reunia cerca de 80 trabalhadores
Um motorista de aplicativo foi cercado e pressionado por vários homens para desligar o aplicativo ou deixar uma área da região central de Ubatuba. A abordagem foi registrada em um vídeo de 5 minutos e 55 segundos obtido pelo UBA24. Um trecho mais resumido foi postado e original permanece a disposição das autoridades.
Durante a gravação, o motorista permanece dentro do veículo enquanto integrantes do grupo se aproximam das janelas e tentam impor regras sobre o funcionamento do aplicativo naquela região.
“Se você não quer ajudar, você sai do local”, afirma um dos homens. Em seguida, outro reforça: “Você está arrumando briga com 80 famílias. Não vale a pena para você”.
O trabalhador também recebe duas alternativas: desligar o aplicativo e permanecer no local para aguardar uma tarifa maior ou continuar conectado e sair da área.
“Ou ele desliga e fica aqui e pega o melhor valor, ou ele liga e sai daqui”, explica um dos motoristas presentes.
Grupo explica estratégia para manter tarifa mais alta
Em determinado momento, um dos participantes explica claramente como o grupo atua para tentar manter o chamado preço dinâmico.
“Essa área que a gente está é uma área em que o valor aumenta. Se algum dos nossos carros ficar ligado no aplicativo, o valor abaixa e a gente não consegue ganhar a corrida”, declara.
A fala indica a existência de uma combinação entre motoristas para permanecerem desconectados do aplicativo e, dessa forma, evitar a redução do valor apresentado aos passageiros. Quem não concordasse com a estratégia deveria deixar o local.
“São 80 pessoas querendo trabalhar e ele está atrapalhando”, acrescenta um dos envolvidos.
“Ninguém agrediu o senhor ainda”
Além da pressão para que o motorista saísse, o vídeo registra frases de caráter intimidatório.
“Ninguém agrediu o senhor ainda. A gente está pedindo na educação, por enquanto”, afirma um homem junto ao carro.
Em outro trecho, integrantes do grupo dizem que o trabalhador deveria “sair do raio” ou “colaborar com a galera”.
Um homem que aparentemente tenta intermediar a situação observa que a vítima estava sozinha e afirma que alguém havia batido no carro.
“O cara que está dando porrada no carro dele está errado”, declara.
As imagens não mostram com clareza uma agressão física contra o motorista, mas registram a aproximação de várias pessoas, a pressão coletiva e o relato de pancadas no veículo.
Ofensas contra a nacionalidade
A nacionalidade do trabalhador também é utilizada durante a abordagem. Um dos envolvidos afirma: “Nem do Brasil você é”. Logo depois, são ouvidas as expressões “gringo do caralho” e “argentino?”.
O motorista responde: “Isso é discriminação”.
As declarações acrescentam um componente xenofóbico à abordagem, que já ocorria em evidente desvantagem numérica.
“A maioria é quem manda”
Outro participante tenta justificar a expulsão do trabalhador utilizando uma interpretação distorcida do conceito de democracia.
“O senhor vive numa democracia? A maioria está pedindo para o senhor sair”, afirma.
Na sequência, o mesmo homem declara que “a democracia é a maioria que manda” e pergunta repetidamente se o motorista seria a maioria ou a minoria.
“Olha à sua volta”, diz ao trabalhador.
Monitoramento da chegada da polícia
No final da gravação, um dos homens pede que outro integrante fique atento ao rádio e verifique se alguma viatura estava se aproximando.
“Fica atento no rádio. Eu vou lá na ponta para ver se vem alguma viatura”, afirma. Depois, diz que seguiria até a “ponta da Taubaté” para observar se uma viatura estava chegando.
O grupo também orienta as pessoas que permaneciam ao redor do carro a filmarem a abordagem caso a polícia aparecesse.
O vídeo não permite confirmar se a Polícia Militar chegou ao local, se houve registro de boletim de ocorrência ou qual plataforma de transporte era utilizada pelo motorista.
A gravação também não mostra 80 pessoas ao redor do carro. Esse número é apresentado pelos próprios envolvidos, que afirmam representar “80 famílias” e “80 pessoas querendo trabalhar”.