
A tecnologia por trás do alerta que antecipou o vendaval no litoral de SP
Defesa Civil avisou no dia anterior; plataforma Earth Networks, radar de Ilhabela, modelos meteorológicos e análise humana formam diferentes camadas do monitoramento
Quando as rajadas começaram a derrubar árvores, danificar coberturas, interromper o fornecimento de energia e provocar ocorrências pelo litoral paulista, a chegada do sistema já vinha sendo acompanhada pela Defesa Civil do Estado.
O primeiro aviso público foi divulgado às 15h55 de terça-feira, 28 de julho. O comunicado previa a passagem de uma frente fria entre quarta-feira, 29, e quinta-feira, 30, com chuvas, descargas elétricas e ventos que poderiam se aproximar dos 90 km/h na Região Metropolitana de São Paulo e na Baixada Santista. Nas demais regiões, incluindo o Litoral Norte, a previsão apontava rajadas superiores a 70 km/h em alguns pontos.
No dia seguinte, às 13h, a Defesa Civil enviou um alerta severo diretamente aos celulares localizados no litoral, entre Itanhaém e Ubatuba. Às 13h48, outro aviso foi encaminhado para a Região Metropolitana de São Paulo.
Às 13h10, o acompanhamento estadual já registrava rajadas de 117 km/h em Taquarituba, 111 km/h em Itanhaém, 83,7 km/h em Santos, 75,2 km/h em Queluz, 70,2 km/h em Registro e 60,8 km/h em Caraguatatuba. Os dados constam dos comunicados publicados pelo Governo de São Paulo.
Em Ubatuba, o vendaval provocou quedas de árvores, danos em telhados e na rede elétrica, interdições de vias e dezenas de atendimentos. Até as 20h30 do dia 29, haviam sido contabilizados 180 chamados relacionados à rede de energia.
Mas como uma ventania consegue ser prevista antes de atingir o litoral? A resposta não está em um único radar, aplicativo ou computador. O alerta nasce do cruzamento de modelos matemáticos, imagens de satélite, radares, estações meteorológicas, sensores de descargas atmosféricas, programas de inteligência artificial e, principalmente, da análise de meteorologistas.
Prever o tempo não é adivinhar o futuro
Uma previsão meteorológica começa com milhões de observações sobre temperatura, pressão atmosférica, umidade, vento, nebulosidade e condições dos oceanos.
Essas informações alimentam modelos numéricos, que dividem a atmosfera em uma imensa grade tridimensional. Os computadores calculam como o ar deverá se movimentar nas horas e nos dias seguintes, levando em consideração as leis da física.
Foi essa primeira camada que permitiu identificar, com antecedência, a formação e o deslocamento da frente fria responsável pela ventania de 29 de julho. O aviso divulgado pela Defesa Civil no dia 28 acertou o período de passagem do sistema e indicou corretamente o vento como principal ameaça.
A intensidade máxima, entretanto, superou a estimativa inicial em alguns pontos. Houve registros acima de 100 km/h no estado, enquanto a previsão anterior indicava rajadas próximas de 90 km/h nas regiões consideradas mais vulneráveis.
Isso não significa que a previsão tenha falhado completamente. Ela antecipou o fenômeno, o dia, as áreas de risco e os possíveis impactos, mas não conseguiu representar com exatidão todos os picos locais. Rajadas extremas podem se formar em poucos minutos e sofrer influência do relevo, das tempestades, da diferença de pressão e da própria circulação do vento entre o mar e a Serra do Mar.
Earth Networks: uma rede que “escuta” os raios
Uma das ferramentas contratadas para auxiliar a Defesa Civil paulista pertence à Earth Networks, empresa especializada no monitoramento de descargas atmosféricas e tempestades severas.
A Simtech, representante da tecnologia no Brasil, informou que venceu, em dezembro de 2025, uma licitação da Casa Militar do Estado de São Paulo para fornecer uma solução em formato de serviço digital. O sistema disponibiliza dados em tempo real e permite sua integração às plataformas operacionais da Defesa Civil e do Centro de Gerenciamento de Emergências.
A contratação, segundo a empresa, envolve o acompanhamento de raios, tempestades, chuvas intensas e condições associadas a rajadas de vento. O comunicado da Simtech não informa o valor do contrato nem identifica todos os módulos disponibilizados ao governo paulista.
A Earth Networks afirma operar uma rede mundial com mais de 1.800 sensores de descargas atmosféricas distribuídos por mais de 100 países. Esses equipamentos não fotografam os raios. Eles captam os sinais eletromagnéticos emitidos pelas descargas.
Quando um raio ocorre, sua emissão pode ser detectada por vários sensores. Relógios de alta precisão registram o instante em que o sinal chegou a cada equipamento. Como o tempo de chegada varia de um ponto para outro, o sistema compara esses registros e calcula a provável localização da descarga.
É semelhante ao que acontece quando várias pessoas, posicionadas em lugares diferentes, escutam o mesmo trovão em momentos ligeiramente distintos. Com a diferença de tempo e a posição de cada sensor, é possível estimar de onde partiu o som. Na rede de raios, todo o processo acontece de forma automatizada e em poucos segundos.
A tecnologia também tenta diferenciar as descargas que permanecem dentro das nuvens daquelas que atingem o solo. Segundo a atual descrição técnica da rede, o sistema utiliza medições do tempo de chegada dos sinais em vários sensores e apresenta precisão de classificação superior a 95%. O desempenho, porém, depende da quantidade e da distribuição dos equipamentos existentes em cada região. Os dados são processados e disponibilizados globalmente em segundos, conforme as especificações apresentadas pela AEM, grupo responsável pela Earth Networks.
Quantos sensores foram usados no vendaval?
Os mais de 1.800 sensores divulgados pela empresa não foram todos utilizados diretamente para analisar o que aconteceu em Ubatuba ou no Litoral Norte.
Esse número representa a rede mundial. Para localizar uma descarga específica, o sistema utiliza os sensores que conseguiram captar aquele sinal com qualidade suficiente. A quantidade varia conforme a distância, a posição dos equipamentos, a intensidade do raio, as interferências e a densidade da rede na região.
Nos documentos públicos consultados, a Defesa Civil não informou quantos sensores estavam ativos no Brasil em 29 de julho, quantos participaram do cálculo das descargas observadas no litoral nem quantos raios foram detectados durante o evento.
Estudos antigos sobre a rede brasileira, chamada BrasilDAT, mencionavam 56 sensores distribuídos pelo país em 2014. Esse dado, com mais de uma década, não deve ser apresentado como número atual.
Para saber exatamente quantos equipamentos participaram da análise do vendaval seria necessário ter acesso ao relatório operacional da Earth Networks ou aos registros técnicos da Defesa Civil. Sem esse documento, atribuir um número específico aos sensores usados no episódio seria especulação.
Um aumento de raios pode denúnciar uma tempestade mais forte
As descargas que ocorrem dentro das nuvens são especialmente importantes para o monitoramento. Elas podem aumentar rapidamente quando uma tempestade ganha força, mesmo antes de os primeiros raios atingirem o solo.
Esse aumento repentino é conhecido como “salto de raios”. Ele indica que há intensa movimentação de partículas de gelo e água dentro da nuvem, geralmente associada a fortes correntes de ar.
Os algoritmos da Earth Networks agrupam as descargas em células de tempestade, calculam sua trajetória e desenham polígonos sobre as áreas ameaçadas. A plataforma também acompanha a quantidade de descargas por minuto, a direção e a velocidade estimada de deslocamento.
Quando a atividade elétrica supera determinados parâmetros, o sistema pode gerar um alerta automatizado de tempestade perigosa. A empresa afirma que essa tecnologia pode oferecer até aproximadamente 45 minutos de antecedência em algumas situações. Trata-se de uma estimativa comercial e não de uma garantia para todos os eventos.
O manual do Sferic Maps, uma das plataformas da Earth Networks, informa que o mapa principal pode ser atualizado a cada minuto. As camadas de radar, satélite, estações meteorológicas e descargas possuem intervalos próprios de atualização. Isso permite acompanhar a evolução da tempestade praticamente em tempo real.
Existe, contudo, uma limitação fundamental: nem todo vento forte está acompanhado por raios.
Uma frente fria pode provocar rajadas intensas devido ao contraste de pressão e temperatura, mesmo sem grande atividade elétrica. Por isso, os sensores de descargas não substituem o radar, os satélites, as estações meteorológicas ou os modelos de previsão. Eles acrescentam uma nova camada de informação, especialmente quando há tempestades convectivas.
Onde entra a inteligência artificial
A inteligência artificial não observa o céu como um radar e não cria uma previsão do nada. Ela é usada para comparar grandes quantidades de dados, identificar padrões e corrigir tendências de erro dos modelos meteorológicos.
O ecossistema da Earth Networks inclui o ENcast, mecanismo que, segundo a empresa, analisa centenas de modelos numéricos e combina os resultados com observações meteorológicas em tempo real. Algoritmos de aprendizado de máquina avaliam quais modelos estão se saindo melhor para determinada região e situação atmosférica.
A ferramenta também utiliza um sistema de correção de erros. Se um modelo previa determinada temperatura, velocidade do vento ou horário de chegada da chuva, mas as estações começaram a registrar outra evolução, a previsão pode ser recalculada.
A empresa afirma que essas correções, atualizadas de hora em hora, podem melhorar em até 40% a precisão dos dados brutos para as 12 horas seguintes. O percentual é uma informação divulgada pelo próprio fornecedor e pode variar conforme a região, a qualidade das observações e o tipo de evento. As características estão descritas na página técnica do ENcast.
Não há, porém, confirmação nos documentos públicos analisados de que o módulo ENcast tenha sido incluído no contrato paulista ou de que tenha sido diretamente responsável pela previsão do vendaval de 29 de julho.
É correto afirmar que a Earth Networks possui recursos de inteligência artificial aplicados à previsão meteorológica. Não é possível afirmar, sem o relatório da operação, que uma IA específica determinou sozinha o dia e o horário em que o vento atingiria o litoral.
A própria Organização Meteorológica Mundial destaca que sistemas de inteligência artificial conseguem processar previsões rapidamente e consumir menos capacidade computacional depois de treinados. Ao mesmo tempo, a organização defende que a análise humana continua indispensável para avaliar incertezas, impactos locais e a necessidade de emissão de alertas.
O radar de Ilhabela e o “ponto cego” da Serra do Mar
O radar instalado na Ponta da Sela, região Sul de Ilhabela, representa outra parte do sistema. Ele pertence à Universidade Estadual Paulista e foi adquirido com recursos federais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A instalação e a operação foram viabilizadas por uma parceria entre Unesp, Governo do Estado e Prefeitura de Ilhabela.
O equipamento começou a funcionar no litoral em março de 2024. É um radar meteorológico de banda X, de fabricação norte-americana, com 500 watts de potência, antena de 1,80 metro e alcance máximo informado de 120 quilômetros.
Embora possa alcançar essa distância, o radar foi inicialmente configurado para operar em um raio de 50 quilômetros. A redução do alcance aumenta a sensibilidade e permite observar fenômenos mais próximos com maior detalhamento. Os dados são enviados ao Centro de Meteorologia da Unesp, em Bauru, processados e compartilhados com a Defesa Civil estadual. As características foram divulgadas pela Unesp e pela Prefeitura de Ilhabela.
A banda X utiliza ondas menores e consegue captar pequenas partículas de água com maior sensibilidade. Equipamentos desse tipo são utilizados para monitoramento de curto alcance e podem preencher falhas de cobertura em áreas montanhosas.
Essa característica é importante no Litoral Norte. A Serra do Mar funciona como uma barreira para radares instalados no planalto. Dependendo da posição e da altura do feixe, a montanha pode esconder parte das nuvens e das chuvas que se formam próximo à costa.
Em julho de 2025, a Defesa Civil mostrou que o radar de Ilhabela conseguiu visualizar chuvas persistentes que não apareciam com a mesma intensidade no radar de banda S de Salesópolis. O equipamento de Salesópolis possui alcance superior a 400 quilômetros, mas foi prejudicado pela barreira geográfica. O radar de Ilhabela, mais próximo do litoral, conseguiu enxergar o fenômeno por outro ângulo.
O sistema estadual reunia, naquele momento, sete radares meteorológicos, localizados em Ilhabela, Campinas, Bauru, Presidente Prudente, Salesópolis e dois pontos da capital. O monitoramento é coordenado pelo Centro Paulista de Radares e Alertas Meteorológicos.
O radar não prevê sozinho
Apesar de ser chamado de radar meteorológico, o equipamento não mostra diretamente como estará o tempo no dia seguinte.
Ele emite pulsos de energia e mede o sinal que retorna após atingir gotas de chuva, cristais de gelo e outras partículas. A intensidade desse retorno é representada em dBZ nos mapas coloridos usados pelos meteorologistas.
Quanto maior a refletividade, mais intenso costuma ser o núcleo de precipitação. Mas a cor do radar não representa automaticamente uma quantidade exata de chuva. O resultado depende do tamanho das gotas, do tipo de precipitação, da distância e de possíveis interferências.
Radares com tecnologia Doppler também conseguem estimar o movimento das partículas em direção ao equipamento ou para longe dele. Essa informação ajuda a identificar circulação, deslocamento de tempestades e áreas com mudanças rápidas no vento.
Ainda assim, o radar mostra principalmente o que está acontecendo naquele momento. Para estimar onde uma célula estará nos próximos minutos, programas comparam imagens sucessivas e calculam sua velocidade e direção. Esse acompanhamento de curtíssimo prazo é chamado de nowcasting.
A banda X também possui limitações. Como trabalha com ondas menores, seu sinal pode perder força ao atravessar chuva muito intensa. O alcance é menor do que o de radares de banda S e obstáculos naturais ainda podem bloquear partes do feixe. É justamente por isso que uma rede com equipamentos em posições diferentes é mais eficiente do que um único radar.
Como o horário de chegada é calculado
A previsão do horário resulta de uma sequência de análises.
Primeiro, os modelos numéricos indicam quando a frente fria deverá entrar no estado. Depois, imagens de satélite mostram a posição das nuvens e a velocidade de deslocamento do sistema.
As estações meteorológicas registram alterações de pressão, temperatura, umidade e vento. O radar acompanha a formação e o avanço das áreas de chuva. Os sensores de descargas mostram se há aumento da atividade elétrica dentro das nuvens.
A inteligência artificial pode comparar modelos, observações atuais e erros anteriores. Os meteorologistas analisam o conjunto, verificam a consistência das informações e avaliam o risco para cada região.
À medida que o sistema se aproxima, a previsão deixa de trabalhar apenas com uma janela ampla — “entre quarta e quinta-feira” — e passa a indicar períodos menores, como “nas próximas três horas” ou “nas próximas duas horas”.
Não existe, porém, uma contagem regressiva infalível. A atmosfera é um sistema caótico. Uma pequena mudança na velocidade da frente, na formação de uma tempestade ou na interação do vento com o relevo pode adiantar ou atrasar os impactos.
Do computador para o celular
Depois da análise técnica, a decisão de emitir o alerta cabe à Defesa Civil.
No episódio de 29 de julho, o primeiro aviso severo foi enviado às 13h para os celulares conectados às antenas localizadas na faixa litorânea entre Itanhaém e Ubatuba. O sistema Cell Broadcast não depende de aplicativo instalado nem de cadastro prévio.
A mensagem é transmitida pelas antenas de telefonia aos aparelhos que estão dentro da área selecionada. Em alertas severos ou extremos, o aviso pode aparecer sobre outros conteúdos e ser acompanhado por um sinal sonoro.
Portanto, a corrente completa funciona assim: equipamentos observam a atmosfera, programas processam os dados, meteorologistas avaliam o risco, a Defesa Civil decide pelo alerta e as operadoras transmitem a mensagem aos celulares.
O que ainda precisa ser explicado
A tecnologia utilizada pelo Estado conseguiu antecipar o período de maior risco e permitiu que as Defesas Civis fossem colocadas em prontidão. No entanto, os comunicados públicos não permitem saber qual foi a participação exata de cada ferramenta.
Não foram divulgados:
- o número de sensores da Earth Networks ativos no Brasil;
- quantos sensores contribuíram para o monitoramento do litoral;
- a quantidade de descargas detectadas durante o evento;
- qual plataforma da empresa foi efetivamente contratada;
- se o módulo de inteligência artificial ENcast estava sendo usado;
- quais imagens do radar de Ilhabela foram consideradas;
- quantas atualizações da previsão ocorreram;
- quais modelos numéricos apresentaram o melhor resultado;
- e em que momento os técnicos concluíram que seria necessário emitir o alerta severo.
Também seria importante divulgar um relatório posterior comparando a previsão com as rajadas realmente observadas. A previsão acertou a chegada da frente fria e o risco de ventos fortes, mas a intensidade registrada em alguns municípios ultrapassou os valores inicialmente anunciados.
Essa transparência permitiria avaliar não apenas se a ferramenta funcionou, mas quanto ela ampliou o tempo disponível para preparar equipes, interromper atividades de risco e avisar a população.
Tecnologia ajuda, mas a decisão continua humana
O vendaval de 29 de julho mostrou que a meteorologia moderna já consegue enxergar sinais de perigo antes que a população perceba qualquer mudança no céu.
Modelos anunciaram a frente fria. Estações registraram a mudança da atmosfera. Radares acompanharam o avanço do sistema. Sensores detectaram a atividade elétrica. Programas cruzaram milhares de informações. Meteorologistas interpretaram o cenário e a Defesa Civil enviou os alertas.
Nenhuma dessas ferramentas, isoladamente, seria suficiente.
O radar não prevê o futuro. O sensor de raios não mede todas as rajadas. A inteligência artificial não elimina as incertezas. E um alerta tecnicamente perfeito perde sua função se chegar tarde ou se a população não souber como reagir.
A principal evolução está justamente na união dessas camadas: observar mais, processar mais rápido, reduzir as áreas sem cobertura e transformar dados complexos em uma mensagem simples antes que o perigo chegue.


