14 de setembro de 2026
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Ex-motorista denúncia combinação para elevar preços de corridas em Ubatuba

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Fonte descreve desligamento coletivo dos aplicativos para reduzir temporariamente a oferta de carros e acionar a tarifa dinâmica; imagens recebidas pelo UBA24 mostram motoristas reunidos no Centro, mas não comprovam a suposta manobra

 

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O UBA24 recebeu neste sábado (29) imagens de vários motoristas de aplicativo reunidos em uma rua do Centro de Ubatuba. No mesmo dia, um ex-profissional do setor relatou à reportagem a existência de uma suposta ação coordenada para interferir no preço das viagens cobradas dos passageiros.

Segundo a fonte, um grupo de motoristas se reúne, fica indisponível nos aplicativos ao mesmo tempo e aguarda o aumento da tarifa dinâmica. Com menos carros aparecendo como disponíveis e passageiros continuando a solicitar viagens, o sistema poderia identificar uma situação temporária de escassez. Depois da elevação do valor, os participantes voltariam a ficar disponíveis e receberiam chamadas mais caras.

O relato acrescenta um novo capítulo a um mês marcado por denúncias de ameaças contra profissionais de outras cidades, suspeitas de corridas falsas, mobilização de motoristas na Câmara e a discussão de um projeto que pretende restringir a atividade a residentes de Ubatuba.

Há, porém, uma separação indispensável entre os fatos documentados e as acusações ainda sob apuração. As imagens recebidas confirmam que motoristas estavam reunidos no Centro. Elas não mostram as telas dos celulares e não comprovam que os aplicativos foram desligados, que houve acordo entre os presentes ou que o preço das corridas aumentou naquele momento.

Até o fechamento desta reportagem, o UBA24 também não teve acesso a mensagens de coordenação, registros internos dos aplicativos ou comparações de preços capazes de demonstrar a realização da manobra em Ubatuba. A identidade do ex-motorista foi preservada pela reportagem.

 

O relato do ex-motorista

Ao explicar como a suposta operação funcionaria, a fonte afirmou:

 

“Então cara, os cara param, todo mundo junto e todo mundo desliga o aplicativo, entendeu? Aí a galera começa a demanda, começa um monte de gente pedir, tem pouca oferta de carro, aí o preço começa a subir. Quando o preço sobe, eles vão e ligam o aparelho, liga o aplicativo de novo. Aí a corrida que era de 10 conto, 5 reais, já foi pra 18, 25, entendeu? Geralmente é isso que eles fazem.”

 

A declaração descreve uma possível redução artificial da oferta: os motoristas não combinariam diretamente um valor para a viagem, mas tentariam provocar o mecanismo automático que calcula o preço dentro do aplicativo.

Na prática narrada pela fonte, uma corrida inicialmente estimada entre R$ 5 e R$ 10 poderia aparecer, minutos depois, por R$ 18 ou R$ 25. Esses valores integram o depoimento e não foram confirmados por recibos, capturas de tela ou outros registros independentes.

O relato é relevante porque apresenta um método específico, uma sequência de ações e um resultado esperado. Ainda assim, o depoimento de uma única fonte, mesmo de alguém que afirma conhecer a rotina do setor, não é suficiente para identificar participantes nem para concluir que a prática ocorre de forma organizada na cidade.

Também não é possível saber, sem registros comparativos do mesmo local e horário, se a desconexão simultânea de um grupo teria escala suficiente para alterar os preços, durante quanto tempo a elevação permaneceria ativa ou se o efeito ficaria restrito a poucas ruas.

 

Como funciona a tarifa dinâmica

A tarifa dinâmica é um mecanismo legítimo utilizado pelos aplicativos para equilibrar a procura por viagens e a quantidade de motoristas disponíveis em cada região.

De maneira geral, o valor pode aumentar quando o número de solicitações supera a quantidade de carros disponíveis. O cálculo é atualizado em tempo real, atua em áreas específicas e pode mudar em poucos minutos. Passageiros próximos entre si também podem receber estimativas diferentes caso consultem o aplicativo em momentos distintos.

Chuva, trânsito intenso, horários de entrada e saída do trabalho, eventos, feriados e o encerramento simultâneo de atividades podem gerar aumentos naturais.

Em uma cidade turística como Ubatuba, a concentração de pedidos na saída das praias, no Centro, na rodoviária ou após grandes eventos também pode alterar rapidamente a relação entre passageiros e carros.

O sistema procura produzir dois efeitos: avisar ao passageiro que há muita procura naquele momento e oferecer uma remuneração maior para estimular novos motoristas a se conectar ou a se deslocar até a área.

Com a chegada de mais carros ou a redução dos pedidos, a tendência é de que o valor retorne aos níveis habituais.

A denúncia recebida pelo UBA24 apresenta uma hipótese diferente. Em vez de responder a uma escassez real, o grupo tentaria criar artificialmente o sinal que o algoritmo interpreta como falta de veículos.

Como a suposta manobra tentaria enganar o sistema

De acordo com o ex-motorista, a sequência seria esta:

1. Um grupo se reúne ou combina previamente a ação em uma região da cidade.

2. Os participantes desligam os aplicativos ou ficam indisponíveis ao mesmo tempo.

3. Passageiros continuam solicitando corridas, mas o sistema passa a enxergar menos carros aptos a aceitar as chamadas.

4. Se o volume de pedidos for suficiente, a diferença entre procura e oferta favorece a ativação ou o aumento da tarifa dinâmica.

5. Depois da elevação, os motoristas voltam a ficar disponíveis e passam a receber ofertas com valores maiores.

O ponto central não é o simples ato de um profissional desligar o aplicativo. Cada motorista tem autonomia para decidir quando deseja trabalhar, fazer uma pausa, rejeitar determinada chamada ou encerrar o expediente.

A questão muda se concorrentes combinam uma retirada coletiva, temporária e destinada especificamente a reduzir a oferta para elevar o preço. Nesse caso, deixa de existir apenas uma escolha individual e surge a suspeita de coordenação econômica.

Mesmo assim, não há garantia de que a tentativa descrita produza o resultado esperado. Os critérios completos dos algoritmos não são públicos, outras variáveis podem interferir no cálculo e a entrada de motoristas que não participam do grupo pode recompor rapidamente a oferta.

Quando os profissionais ficam desconectados, o sistema registra apenas a ausência de carros disponíveis naquele momento. Ele não revela se houve uma pausa normal ou uma retirada combinada. Também não registra conversas realizadas pessoalmente ou em canais externos ao aplicativo.

 

O que as imagens mostram — e o que elas não mostram

O material enviado ao UBA24 neste sábado mostra vários motoristas reunidos em uma rua do Centro. Essa é a informação visual disponível.

Não existe irregularidade automática no fato de profissionais conversarem, aguardarem chamadas no mesmo lugar ou trocarem informações sobre trânsito, segurança, condições de trabalho e movimento de passageiros.

As imagens não revelam se os aplicativos estavam ligados ou desligados. Também não permitem verificar o horário exato de cada desconexão, o preço exibido aos passageiros ou a existência de uma orientação comum.

Por isso, a fotografia de um grupo não pode ser usada isoladamente para acusar todos os presentes de manipulação, cartel ou participação em uma organização criminosa.

A responsabilidade, caso alguma irregularidade seja comprovada, deverá ser individualizada.

Para ligar aquela reunião à suposta manobra seriam necessários outros elementos: mensagens ou áudios com instruções, gravações, testemunhos independentes, capturas de tela feitas antes e depois, recibos de viagens e registros que permitissem comparar a disponibilidade de carros com a variação dos preços.

Por que o passageiro pode ser prejudicado

Se a prática for confirmada, o primeiro impacto recairá sobre o passageiro. Uma pessoa que precisa se deslocar pode enfrentar ao mesmo tempo aumento de preço, demora para encontrar um carro e redução das opções disponíveis.

O usuário muitas vezes não consegue distinguir uma alta causada por chuva, trânsito ou evento daquela que resultaria de uma retirada combinada de motoristas. Para ele, o aplicativo apenas informa que há muita procura e apresenta o novo valor.

Esperar alguns minutos e fazer uma nova consulta pode mostrar preço diferente, mas isso não é garantia.

Em uma urgência, na volta para casa durante a noite, com crianças, bagagem ou dificuldade de locomoção, o passageiro pode não ter condições de aguardar.

Os próprios motoristas que não participarem de uma eventual combinação também podem ser atingidos.

Caso as denúncias de pressão e perseguição sejam verdadeiras, profissionais independentes poderiam sofrer constrangimento por aceitar corridas nos períodos em que outros desejam permanecer desconectados. Essa relação, contudo, ainda precisa ser demonstrada pela investigação.

 

 Agosto foi marcado por ameaças e disputa por mercado

A nova denúncia marca a reta final de um mês de tensão entre parte dos motoristas que atuam em Ubatuba.

No dia 13 de agosto, um profissional de Caraguatatuba registrou boletim de ocorrência depois de afirmar que foi atraído por uma solicitação de corrida e cercado por três veículos nas proximidades da Rua Liberdade com a Avenida Rio Grande do Sul.

Segundo o documento, os envolvidos questionaram a presença de motoristas de outras cidades e teriam determinado que o profissional deixasse de trabalhar em Ubatuba. A ocorrência foi registrada como ameaça.

O motorista relatou ainda ter sido seguido até as proximidades da Praia Grande. Os autores não haviam sido identificados quando o UBA24 públicou o caso, no dia 24

No dia 19, o mesmo profissional afirmou ter enfrentado um segundo cerco, desta vez com aproximadamente 30 pessoas, na região do Perequê-Açu.

Conforme o depoimento dele, integrantes do grupo fotografaram a placa do veículo e informações exibidas em seu perfil no aplicativo.

O denúnciante também mencionou corridas falsas, utilização de mais de uma conta por alguns profissionais e um grupo fechado de comunicação com centenas de participantes.

Todas essas alegações continuam sem comprovação pública e precisam ser verificadas pelas autoridades.

Na reportagem anterior, a expressão “máfia dos aplicativos” apareceu entre aspas para reproduzir a gravidade da denúncia apresentada pelo motorista.

O termo não representa conclusão da Polícia Civil, do Ministério Público, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica ou do próprio UBA24.

O novo depoimento sobre a tarifa dinâmica não comprova automaticamente ligação entre os episódios. É possível que os fatos tenham participantes diferentes ou sequer integrem uma ação comum.

A existência de coordenação entre ameaças, corridas falsas e tentativa de elevação de preços dependerá de provas.

 

Projeto na Câmara pretende impedir motoristas de fora

Enquanto as denúncias chegaram à polícia e à imprensa, a Câmara Municipal passou agosto discutindo o Projeto de Lei Legislativo nº 6/2026, de autoria do vereador Pastor Sandro Anderle.

O texto pretende exigir que o motorista comprove residência em Ubatuba há mais de seis meses para trabalhar por aplicativos no município.

 

A Procuradoria Legislativa considerou essa exigência materialmente inconstitucional por criar uma reserva de mercado e contrariar o livre exercício profissional e a livre concorrência.

O projeto chegou ao plenário nos dias 11, 18 e 25 de agosto, mas recebeu pedidos de adiamento nas três ocasiões. Na última sessão, o próprio autor solicitou que a análise fosse suspensa por mais três sessões.

Cerca de 40 motoristas acompanharam a reunião do dia 25 e exibiram cartazes. A presença na Câmara e a participação em uma manifestação pública não relacionam esses profissionais às ameaças investigadas nem à denúncia sobre a tarifa dinâmica.

Pastor Sandro afirmou possuir reclamações e denúncias de passageiros que deverão ser apresentadas quando o projeto for votado.

Vereadores também defenderam uma nova audiência pública para ouvir motoristas, usuários e representantes dos aplicativos.

O histórico da proposta e os pareceres foram detalhados pelo UBA24.

Até agora, não há elemento que relacione o autor, os demais vereadores ou a tramitação do projeto aos cercos, às ameaças ou à suposta combinação destinada a elevar preços.

Restrição combinada da oferta pode ser investigada

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, define cartel como acordo ou prática concertada entre concorrentes para fixar preços, dividir mercados, estabelecer quotas ou restringir produção e oferta.

A hipótese relatada ao UBA24 não descreve uma tabela de preços combinada diretamente pelos motoristas. Ela trata de uma possível restrição coletiva da oferta para tentar influenciar o valor calculado pelos aplicativos.

Se comprovada, a conduta poderá ser analisada pelas autoridades competentes, conforme as circunstâncias e o alcance da ação.

O próprio Cade ressalta que preços semelhantes, comportamentos paralelos ou reuniões entre concorrentes não bastam para comprovar cartel.

A apuração precisa encontrar provas da coordenação, como mensagens, registros de contatos, gravações, documentos e dados econômicos compatíveis com o acordo denúnciado.

Também não há, neste momento, base para afirmar que exista associação criminosa ou organização criminosa formada por motoristas de aplicativo em Ubatuba.

Expressões como “máfia” e “quadrilha” não podem ser adotadas como conclusão jornalística ou jurídica sem investigação capaz de demonstrar quem participou, qual era a estrutura, como as tarefas eram divididas e quais infrações teriam sido praticadas.

 

Quais provas poderiam confirmar ou descartar a denúncia

Uma apuração técnica precisa cruzar informações de diferentes fontes. Capturas de tela de um único passageiro podem indicar que o preço mudou, mas não explicam a causa.

Da mesma forma, a desconexão de um motorista não demonstra a existência de acordo coletivo.

Para confirmar ou descartar a denúncia, seria necessário verificar:

  • se houve uma queda simultânea e incomum no número de motoristas disponíveis no Centro;
  • se a retirada ocorreu nos mesmos minutos em que as imagens foram feitas;
  • se houve aumento anormal dos preços e do tempo de espera naquele intervalo;
  • se os mesmos perfis voltaram a ficar disponíveis logo depois da elevação;
  • se existem mensagens, áudios ou chamadas orientando o momento de desligar e religar os aplicativos;
  • se passageiros receberam estimativas diferentes para o mesmo trajeto, no mesmo local e em horários próximos;
  • se houve utilização de corridas falsas para monitorar, atrair ou afastar outros profissionais;
  • se contas de terceiros ou múltiplos cadastros foram utilizados.

Passageiros que tenham percebido oscilações incomuns podem preservar capturas de tela com data, horário, ponto de partida e destino, além do recibo da viagem efetivamente realizada.

Para proteger a privacidade, dados pessoais, endereço residencial e informações bancárias devem ser ocultados antes de qualquer compartilhamento.

Por que a desconexão dificulta a comprovação

O próprio método descrito pelo ex-motorista torna a apuração mais difícil.

Enquanto os profissionais estão desconectados, não existe corrida aceita, viagem iniciada ou valor efetivamente cobrado que demonstre a participação de cada pessoa.

Uma eventual queda no número de carros disponíveis também não revela, sozinha, o motivo da desconexão. Motoristas podem parar por falta de movimento, descanso, alimentação, abastecimento, problemas no celular ou encerramento do expediente.

Da mesma forma, uma elevação de preço não prova manipulação. O valor pode variar naturalmente por aumento da procura, trânsito, chuva, eventos ou concentração de passageiros em uma área específica.

Para demonstrar uma ação coordenada seria necessário juntar diferentes elementos: a orientação para que os aplicativos fossem desligados, o horário da retirada, a queda da oferta, a elevação do preço e a reconexão dos mesmos participantes.

Sem essa sequência, permanecem o relato da fonte e as imagens da reunião, mas não a comprovação da manobra.

 

O UBA24 continuará acompanhando o caso e atualizará esta reportagem caso receba informações das autoridades ou novas provas apresentadas por passageiros e motoristas.

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Francisco Trevisan

Jornalista, MTB 0096161/SP, graduado em Comunicação Social pela Unitau e editor do UBA24. Atua na cobertura de Ubatuba e do Litoral Norte paulista.

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