
Morte na 28 Praias em Ubatuba: apuração aponta mais de 20 minutos sem compressões durante retirada do atleta
A morte de um atleta de 53 anos durante o Desafio 28 Praias, em Ubatuba, ganhou novos questionamentos após relatos obtidos pelo UBA24 sobre a sequência do atendimento realizado ainda na trilha.
Segundo pessoas que acompanharam o socorro e informações apuradas pela reportagem, o atleta recebeu manobras de ressuscitação cardiopulmonar após sofrer uma parada cardiorrespiratória, mas teria permanecido por mais de 20 minutos sem compressões torácicas durante parte da retirada do local de difícil acesso.
A informação ainda precisa ser esclarecida pela empresa particular responsável pelo atendimento médico contratado para a prova e pela organização do evento.
O ponto é importante porque, em uma parada cardiorrespiratória, as diretrizes internacionais priorizam compressões de qualidade e com o mínimo possível de interrupções.
A nova apuração desloca parte da discussão. O questionamento já não envolve apenas quanto tempo o desfibrilador demorou para chegar ao atleta, mas também o que foi feito depois que os recursos e profissionais chegaram até ele.
Atendimento inicial era de estrutura particular do evento
É necessário separar as responsabilidades envolvidas no atendimento.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência não era a estrutura médica contratada para realizar a cobertura do Desafio 28 Praias.
O atendimento inicial e a retirada do atleta da trilha estavam relacionados à estrutura particular contratada pela organização da competição. O serviço público de emergência foi acionado posteriormente e participou da continuidade do atendimento.
Por isso, eventuais decisões tomadas antes da chegada das equipes públicas não podem ser automaticamente atribuídas ao serviço municipal.
Da mesma maneira, a presença posterior do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência não elimina a necessidade de esclarecer quais recursos, profissionais e protocolos estavam disponíveis na estrutura particular que deveria atender os participantes da prova.
Prefeitura informou que desfibrilador levou cerca de 20 minutos para chegar
Em esclarecimento divulgado após a morte, a Prefeitura de Ubatuba apresentou informações fornecidas pela organização da competição.
Segundo essa versão, o atleta apresentou mal-estar nas proximidades do quilômetro 22 do percurso de 28 quilômetros.
A organização informou que ele estava consciente e orientado no primeiro atendimento e que a parada cardiorrespiratória teria ocorrido posteriormente, durante sua retirada da trilha.
O diretor de Segurança da competição, Major Góes, afirmou que havia quatro desfibriladores externos automáticos distribuídos ao longo da prova.
Um dos aparelhos, entretanto, levou cerca de 20 minutos para chegar até o atleta, segundo a própria organização.
Quando o equipamento foi conectado, não teria indicado a aplicação de choque.
Esse dado não significa que um choque obrigatoriamente seria indicado se o equipamento tivesse chegado antes. O desfibrilador somente recomenda descarga elétrica em determinados ritmos cardíacos.
Mas o intervalo informado chama atenção porque a American Heart Association trabalha com o conceito de desfibrilação precoce e, em programas de acesso a desfibriladores, busca-se que a análise do ritmo e eventual choque ocorram nos primeiros minutos após o colapso, em aproximadamente três a cinco minutos.
Os 20 minutos informados pela organização estão, portanto, muito acima dessa referência.
Os 10 minutos usados no atendimento pré-hospitalar
Existe ainda outra referência internacional conhecida entre profissionais de emergência: os chamados “10 minutos de platina”, difundidos no atendimento pré-hospitalar ao trauma pelo Prehospital Trauma Life Support.
O conceito parte do princípio de que um paciente crítico deve permanecer no local apenas o tempo necessário para as intervenções essenciais, com rápida preparação para transporte ao atendimento definitivo.
É importante não confundir os dois conceitos.
Os dez minutos não representam um prazo aceitável para levar um desfibrilador a uma vítima de parada cardíaca. Para a desfibrilação, a necessidade de rapidez é ainda maior.
Mas a comparação ajuda a dimensionar a situação: os 20 minutos informados para a chegada do desfibrilador representam o dobro dessa conhecida referência de agilidade no atendimento pré-hospitalar, enquanto a janela ideal para desfibrilação precoce é menor.
Apuração aponta mais de 20 minutos sem compressões durante descida
Além da demora para a chegada do desfibrilador, a reportagem recebeu relatos sobre o período de retirada do atleta da trilha.
Segundo as informações obtidas, as compressões torácicas teriam sido interrompidas durante parte significativa do deslocamento, com um período superior a 20 minutos sem massagem cardíaca.
Caso essa informação seja confirmada, é necessário esclarecer qual decisão técnica justificou a interrupção.
As recomendações de ressuscitação cardiopulmonar indicam que as compressões devem ser mantidas com o mínimo possível de pausas.
Evidentemente, uma retirada em trilha apresenta dificuldades muito diferentes de um atendimento realizado em uma rua, residência ou ambiente hospitalar.
O terreno pode colocar em risco os socorristas, dificultar o transporte e tornar tecnicamente impossível manter compressões contínuas em determinados momentos.
Justamente por isso, uma prova realizada em ambiente de difícil acesso precisa contar com planejamento específico para uma emergência dessa gravidade.
A pergunta central é: qual era o protocolo previsto pela estrutura particular contratada para retirar um atleta em parada cardiorrespiratória de uma trilha sem interromper por longo período as manobras de ressuscitação?
Se havia suporte avançado, o que foi feito na trilha?
Outro ponto levantado pela apuração é a estrutura médica disponível.
Segundo as informações obtidas pela reportagem, o evento contava com empresa particular contratada para atendimento e transporte médico, inclusive com profissionais e recursos de suporte avançado.
Diante disso, é necessário esclarecer quais procedimentos foram efetivamente realizados no local.
Em uma parada cardiorrespiratória, o suporte avançado pode incluir acesso vascular, administração de medicamentos previstos nos protocolos, ventilação, manejo de via aérea e outras medidas, sempre sem comprometer as prioridades de compressão torácica e desfibrilação precoce.
Isso não significa que todas essas intervenções sejam obrigatórias imediatamente ou que devam ser feitas durante uma remoção insegura.
Mas, se havia uma estrutura avançada contratada, é legítimo perguntar quais recursos chegaram efetivamente até o atleta e quais procedimentos puderam ser realizados antes do encontro com o serviço público de emergência.
Por que o desfibrilador não teria permanecido conectado?
Testemunhas também relataram que os eletrodos do desfibrilador não teriam permanecido aderidos ao tórax do atleta durante toda a retirada.
Esse ponto precisa ser esclarecido.
Quando tecnicamente possível, manter os eletrodos posicionados permite novas análises do ritmo cardíaco ao longo da ressuscitação.
Isso é relevante porque o ritmo de uma parada cardíaca pode mudar.
O fato de o aparelho não ter indicado choque em uma determinada análise não permite concluir que o paciente permaneceria com o mesmo ritmo durante todo o atendimento.
Da mesma forma, não é possível afirmar que o equipamento teria indicado choque posteriormente.
Para saber exatamente o que ocorreu seria necessário conhecer os registros do aparelho e a cronologia completa do atendimento.
A pergunta permanece: por que, segundo testemunhas, o desfibrilador não teria permanecido conectado durante toda a retirada e quantas análises do ritmo foram realizadas?
Onde estava o oxigênio?
Outro questionamento envolve a ventilação.
Relatos obtidos pelo UBA24 indicam que havia bolsa-válvula-máscara disponível, mas uma fonte de oxigênio não teria acompanhado o atleta durante parte da descida.
A ausência de oxigênio em determinado momento não permite, isoladamente, concluir que houve erro.
Mas diante da existência de uma estrutura médica particular contratada para uma competição realizada em local de difícil acesso, é necessário esclarecer quais equipamentos estavam disponíveis junto à vítima e quais não conseguiram chegar até aquele trecho.
Via aérea avançada teria ocorrido apenas posteriormente
A reportagem também recebeu a informação de que a intubação teria sido realizada somente cerca de 50 minutos depois, já por outro médico.
A intubação não é obrigatoriamente a primeira medida em uma parada cardíaca e não deve atrasar compressões ou desfibrilação.
Por isso, simplesmente afirmar que ela não ocorreu imediatamente não demonstra falha no atendimento.
O que precisa ser esclarecido é se havia profissional habilitado e equipamento para manejo avançado da via aérea, qual estratégia de ventilação foi adotada durante a retirada e em que momento a equipe avaliou a necessidade de uma via aérea avançada.
O serviço público entrou depois
A sequência dos atendimentos também precisa ficar clara para evitar que responsabilidades sejam misturadas.
A cobertura médica do evento era particular.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência foi acionado depois e encontrou uma ocorrência que já estava em andamento.
A equipe pública participou da continuidade das manobras e do atendimento, mas não era responsável pelo planejamento inicial da assistência médica da competição nem pela estrutura particular contratada para estar disponível ao longo do percurso.
Isso não permite afirmar que o serviço público “corrigiu” tecnicamente todas as decisões tomadas anteriormente, porque essa conclusão exigiria análise médica detalhada dos registros.
Mas permite estabelecer uma diferença fundamental: as perguntas sobre a assistência realizada antes da chegada do serviço público precisam ser respondidas pela estrutura particular e pelos responsáveis pela organização do evento.
Empresa contratada e organização precisam esclarecer planejamento
Uma empresa que oferece cobertura médica para um evento esportivo precisa estar preparada para os riscos previsíveis daquela atividade.
Isso envolve profissionais habilitados, equipamentos, meios de comunicação, planejamento de acesso, retirada e transporte e protocolos para situações graves.
Em uma prova de 28 quilômetros que passa por praias e trilhas, uma emergência em local de difícil acesso não pode ser tratada como uma situação inesperada do ponto de vista de planejamento.
O mesmo vale para a organização que contrata esse serviço.
Não basta dizer que havia quatro desfibriladores, ambulâncias ou profissionais.
É necessário saber onde os recursos estavam posicionados, em quanto tempo chegariam aos diferentes pontos do percurso e o que as equipes seriam capazes de fazer quando alcançassem uma vítima crítica.
A contratação de uma empresa particular também não encerra automaticamente a responsabilidade da organização sobre o planejamento da segurança do evento.
A eventual responsabilidade jurídica de cada envolvido dependerá da apuração dos fatos e não pode ser antecipada.
Isso não significa que o atleta sobreviveria
Há um cuidado fundamental nesta apuração.
Não é possível afirmar que o atleta teria sobrevivido se o desfibrilador tivesse chegado antes, se as compressões não tivessem sido interrompidas ou se outras medidas tivessem sido realizadas de maneira diferente.
Mesmo um atendimento rápido e tecnicamente adequado não garante reversão de uma parada cardiorrespiratória.
Também não há elementos suficientes, neste momento, para afirmar que determinada conduta causou a morte.
Mas isso é diferente de avaliar se as possibilidades de sobrevivência disponíveis naquele momento foram preservadas da melhor maneira possível.
Em uma parada cardiorrespiratória, tempo, continuidade das compressões, ventilação adequada e desfibrilação precoce, quando indicada, fazem parte dos fatores que influenciam as chances de um bom desfecho.
Por isso, relatos de um período superior a 20 minutos sem compressões durante uma retirada precisam ser tecnicamente esclarecidos.
Perguntas que permanecem
A organização da prova e a empresa particular responsável pela cobertura médica precisam esclarecer pontos objetivos.
Onde estavam os quatro desfibriladores distribuídos pelo percurso?
Por que um deles levou aproximadamente 20 minutos para chegar ao atleta?
As compressões torácicas foram interrompidas durante a retirada? Se foram, por quanto tempo e por qual motivo técnico?
O desfibrilador permaneceu conectado durante todo o atendimento? Quantas análises do ritmo cardíaco foram realizadas?
Havia oxigênio disponível junto ao atleta durante a retirada?
Quem integrava a equipe particular que chegou ao local?
Havia médico, enfermeiro ou profissional habilitado para suporte avançado naquele ponto?
Que procedimentos foram realizados antes da chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência?
Qual era o plano previamente estabelecido para atender uma parada cardiorrespiratória nos trechos de trilha?
A estrutura contratada tinha condições de prestar suporte avançado naquele ambiente?
Equipamento disponível não basta se não puder ser utilizado a tempo
A questão central não é apenas saber se existiam ambulâncias, desfibriladores ou equipamentos.
É saber se a estrutura montada era capaz de fazer esses recursos chegarem até o atleta no tempo necessário e se os profissionais presentes tinham condições de manter um atendimento compatível com uma parada cardiorrespiratória durante uma retirada complexa.
O desfibrilador, segundo a própria organização, levou aproximadamente 20 minutos para chegar.
Agora, a apuração aponta que o atleta também pode ter permanecido por mais de 20 minutos sem compressões durante parte da descida.
Nenhuma dessas informações permite, sozinha, afirmar que o desfecho seria diferente.
Mas ambas exigem respostas técnicas.
O ponto central não é afirmar que o atleta certamente sobreviveria. É saber se, diante de uma emergência extrema, todas as chances que ele ainda tinha foram preservadas pelo atendimento oferecido.
O UBA24 busca manifestação da organização e da empresa particular responsável pela cobertura médica para esclarecer os pontos levantados nesta apuração.